Navegando...

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Trabalhamos embarcadas, offshore, dentro d’água, como queiram. As palavras para explicar essa maneira de ganhar a vida, ou ganhar o sagrado dinheiro para viver a vida, tem muitos nomes. Mas, o importante é o que se ganha na convivência. Neste mundo muito diferente, temos o privilégio da intimidade quando descobrimos a beleza no interior dos seres mais incríveis. Verdadeiros presentes em palavras pois é o que podemos aqui compartilhar. Pérolas que não vão adornar o corpo mas com certeza vão fazer crescer o valor da alma de cada uma de nós. Se nem tudo que se mostra é belo, não importa. Se percebermos o equilíbrio, vai ficar tudo bem!

24 setembro, 2015

Jose Roberto


Há muito tempo atrás, quando crianças, em Brasília, brincávamos juntos de pique-esconde, queimado, finca, cinco marias, corda, elástico, bicicleta, pipa. Sentávamos em círculos em baixo do bloco quando chovia e inventávamos brincadeiras. E nessas raras chuvas procurávamos poças d`água para catar girinos.
Criança sempre inventa. Criança tem aquele jeitinho flexível de se auto-organizar, pulando as barreiras da vida com uma energia que parece não ter fim. Só que elas crescem, e no meio deste caminho - tão preocupadas estão com a vida - esquecem a morte. Também, ninguém quer acabar com a brincadeira! Tem uma bola para perceguir, alguém para competir, uma mentira "branca" para contar e tornar-se o chefe da turma.
Todos querem lembrar dos sorrisos, das gargalhadas fáceis, dos olhares curiosos e movimentos furtivos. Aquelas cutucadas rápidas, cúmplices, e as subidas nas árvores. Lembrando disso nós fazíamos guerra de "xixi-de-gato". Para quem não sabe, esta árvore, tulipeira do gabão, (Spathodea campanulata) tem um botão floral em forma de bisnaga que contém água perfumada. Nós usávamos nas brincadeiras e o objetivo era esguichar o líquido um no outro, gritando: "xixi de gato!". A seiva provoca manchas amarelas nos dedos e na roupa, o que deixava nossas mães ligeiramente furiosas e nos faziam descer das árvores e tirar as bisnagas dos bolsos - diga-se de passagem: tarde demais!
Por isso crianças não pensam na morte. Elas estão preocupadas com a vida, com a próxima brincadeira, na visita à casa do amiguinho, com os possíveis castigos - (aliás, castigo e a chinelada é o que se pensa estar mais perto da morte). E nós, adultos, empurramos lá para o fundo da mente esta sombra impalpável, e nos agarramos aos bons momentos, cultivamos lembranças lindas e felizes e alimentamos nossos dias sombrios.
Mas será que a morte existe mesmo? Será que a ausência física pode apagar tantos anos de presença? Prefiro escolher um NÃO! Até nas cartas de tarô o esqueleto, mais comum símbolo da morte, pode ser uma mudança indesejada, uma guinada radical na vida, uma fase passageira que irá fazer você trocar de pele.Agora, pensando em um dos meus amigos de infância, que a vida teve o capricho de afastar fisicamente deste plano, tenho a sensação que nada vai afastar o laço que foi criado naquela infância agitada, junto com seus irmãos e irmãs. O amor não acaba nunca. Pessoas boas estão sempre presente em nossos corações. Choro sim, porque fico aqui e sinto ver a tristeza que foi gerada pelo vácuo da sua personalidade marcante. Lamento pela surpresa que foi sua partida, sempre pensamos que vamos durar para sempre e que nosso corpo é feito de pedra. Agora que somos adultos, deveríamos pensar em ensinar às crianças que a brincadeira acaba. Mas isso não iria servir para nada. Elas não entenderiam. Pois sua conexão com o divino é puro e sabem que nada se perde – talvez só umas bolinhas de gude! E quando penso em você, sua imagem é tão alegre que me faz sorrir, me dando um alento. A doçura de sentimentos que você deixou para mim é tão nobre, que só posso agradecer pelo tempo que tive o privilégio de conhecer você. Abraço uma das famílias mais lindas que já conheci: Seu Chico, Antonieta, Denilson, Ana Paula, Julieta, José Roberto, Francisco. Seu coração sempre foi nobre, cativante, íntegro. Coração de menino que trazia sempre alegria onde quer que fosse. Vai ver, foi por isso que ele parou de bater, porque a brincadeira acabou, era hora de descer da árvore e virar gente grande!

23 setembro, 2015

Conversa de Mulher







Leo Jaime, em seu livro “Cabeça de Homem”, escreveu que o “Clube da Luluzinha”, ou seja, conversa de mulher é maçante! Adivinha? Não gostei nada desse conceito! Mesmo porque ele ainda citou alguns temas das nossas conversas como o mundo “cri-cri” das crianças/criadas, onde comprar ou de como emagrecer, sendo prováveis temas “maçantes” quando nos encontramos.
Minha amiga querida você considera esse tipo de conversa entediante? Imagino que falar dos filhos, da dificuldade em encontrar uma boa ajudante para nosso dia a dia apertado, onde comprar TUDO, mais barato e melhor e emagrecer (ah, sim, falamos sobre engordar também!) pode ser o fim do mundo do tédio. Quem nos dera! Se esses assuntos fossem assim tão descabidamente entediantes todos os nossos problemas estariam resolvidos.
Mas não é só isso. Conversamos sobre o mundo, sobre carros, sobre os homens. Debatemos uma ideia ou várias para acabar com doenças (principalmente psicológicas) e tentamos solidariamente abraçar nossas irmãs de todas as formas para destruir com ferocidade todos os problemas.
Maçante? Nunca! Nem quando todas as minhas tias se juntam – e falam ao mesmo tempo – sobre tudo e sobre nada, entedia. Pelo contrário. Gosto de assistir ao relato da infância delas, as dificuldades, as virtudes. É maravilhoso poder fazer parte de um mundo tão distante do meu e ao mesmo tempo tão perto. É um privilégio observar seres tão ricos compartilhando um pouco das suas experiências de vida.
E a energia? Ah, a energia feminina, que brota lá de dentro, daquele útero que não só dá a luz às crianças, mas também dá luz ao equilíbrio do universo. E essa luz faz crescer e se expandir por todas as células, alcançando o coração e inundando a mente de ideias, criatividade, alegria e consolo. 
Quando nós, meninas, nos encontramos, é como se o tempo abrisse uma brecha única para deixar passar tudo o que carregamos na alma. E falar sobre tudo isso nos dá estofo. Compartilhar palavras com café e bolo nos dá resistência. Estar juntas em um único lugar, marejando os olhos com os sentimentos de sua amiga, é amor profundo, insubstituível.
E em minha opinião totalmente egoística, é por isso que as mulheres crescem mais rápido. Evoluem. Em uma proporção tão fenomenal que jamais algum homem vai entender.
Concordo que devemos aprimorar o convívio com os mundos masculino e feminino. Tentar aprender os segredos ou jeitos, um do outro e assim tornar nossa convivência mais equilibrada e inteligente. Mas ainda estamos muito longe de sermos perfeitos. Afinal, somos de Vênus, e eles, de Marte!
Temos sempre muito que aprender. E sempre, de alguma forma, ensinamos também. Mas, além do preconceito, semitismo, fascismo, homofobia, sectarismo, ascetismo, misantropia, niilismo, pragmatismo e violência de vários níveis, ainda prefiro o epicurismo e o humanismo. Não podemos perder nossa essência divina. Não podemos julgar e condenar nossas irmãs, que são fundamentais para nossa existência e sobrevivência e, também, devemos entender que nossos estimados homens só conseguem atingir o Nirvana na “caixa do nada”, com o controle remoto na mão. Aí sim, eu concordo com o autor do livro: isso deve ser muito chato! Ainda mais se tiver um filho "cri-cri" querendo colo ou comida ou simplesmente atenção!
Mas o fundamental é o respeito. Mulheres e homens são diferentes como homens são diferentes de garotos, de adolescentes e de velhos. E assim também é no universo feminino. Cada mulher, cada homem, tem sua bagagem, sua construção psíquica, seus traumas e valores. Generalizar? Muito difícil, mas muitas vezes é isso que fazemos descendo o martelo do juízo final condenando nossos irmãos e irmãs.
Ontem, reencontrei uma amiga que trabalhou comigo em um navio há mais de 4 anos. Quando nos vimos nos abraçamos e nos emocionamos. Embora não estivéssemos nos visto nesses últimos anos, o carinho, a cumplicidade, o amor estava ali. Mulheres são assim. Não necessitamos muito coisa para nos fazer feliz, se a semente é bem plantada e enraíza com respeito e sentimento sincero, é só deixar crescer que a amizade estará sempre lá!
E continuamos nossa narrativa - nada enfadonha - de nossas vidas: separação, mudança, casamento, um gatinho novo (de verdade), compra de carro, cirurgias, tratamentos, família, pai, mãe, sobrinhos, irmãos, viagens, reformas, trabalho, colegas - "Como é bom trabalhar com você"; "Senti sua falta"; "Você está muito bem."; "Vai me visitar."; "Vou sim, pode esperar."; "Vou esperar sim, só quero ver."
Claro que eu vou! Será um privilégio poder segurar seu filho um pouquinho e sentir que ele foi muito feliz e sábio ao escolher uma mãe como você!
Não entendo como os homens podem achar o papo da mulher maçante, tendo, todas nós, tantas responsabilidades. Maçante é termos que matar o mesmo leão todos os dias na louça que nunca parece estar limpa. "Acabei de lavar 5 copos e a pia está cheia, novamente!" 
Chato é ter que agarrar o pitbull pelo pescoço todos os dias explicando para seu filho pré-adolescente que ele precisa estudar, caso contrário ele vai ter 10% de oportunidade no mercado de trabalho, enquanto ele pensa no joguinho em seu celular de última geração. 
Cansativo é quando não conseguimos que nosso companheiro fale a mesma língua que nós, e temos que usar mais um artifício "inteligente" para que o interesse não desça ralo abaixo, como se fôssemos as únicas responsáveis por tudo que acontece no mundo.
Fala sério!!!!!

22 setembro, 2015

Hoje é um daqueles dias...


      Hoje é um dia daqueles, onde a gripe começa na garganta e sua voz fica cavernosa. E a tristeza vem com força debilitando não só o corpo mas a vontade... de tudo. Pode parecer meio depressivo mas é apenas uma fase da lua. E olha que ela está crescente!
      Mas é assim que acontece. Quando a febre se instala e o corpo quer reagir e não consegue. A mente dá voltas e se embola com os outros. Problemas alheios, no trabalho, em casa. Principalmente no trabalho. Aqui nesta ilha de ferro onde todos parecem muito próximos mas estão sempre tão distantes. Distantes de casa, de qualquer carinho, afastados de si mesmos, de todos. Encavernados em seus próprios mundos e querendo apenas um pouquinho do ouvido alheio.
      Nesse trabalho tão ortodoxo, verificamos que somos impotentes diante de tantos mandos e desmandos desses ditos chefes que deveriam ser competentes e só nos mostram maneiras disconexas para lidar com qualquer situação. Tem um aqui que é completamente descompensado. Uma pessoa que encontra problema na solução. Questiona tudo e o que está pronto ele desmancha porque é seu "estilo". Trabalhar com uma pessoa totalmente inconstante é absurdamente cansativo. Principalmente se for o chefe. E no fim das contas ninguém fala nada. A palavra dele sempre é a última (depois de dez minutos falando sem te dar oportunidade de argumentar).
     E ainda tem os absurdos, as injustiças, as discriminações. Vemos nossos colegas - bons profissionais - sujeitados à condenação sem julgamento. E estou falando do simples trabalho realizado indo até demissões injustas.
     Mas é assim que segue o curso da vida - mas não sei se concordo passivamente com isso. Em algum lugar dentro da minha mente tem um sininho que bate dizendo "tá errado"! Mas, o que fazer?
Choro. Fico tão triste, tão aborrecida que simplesmente choro. É assim que sinto a incapacidade de ação. Como agir? Como dar alento a alguém dizendo, "calma, tudo vai dar certo", se nem mesmo acredito nas minhas palavras e não confio no sistema em que trabalhamos / vivemos, passamos metade da nossa vida.
     Penso naquelas pessoas que jogam tudo para cima e vão viver no meio do mato, da selva, do nada, só para terem o prazer de não se aborrecerem com as altercações imbecis e desnecessárias do dia a dia. Covardes? Não! Corajosas! Assim pelo menos não vão deixar que pessoas incompetentes governem suas vidas e tão pouco suas vontades.
     Mas, para quem trabalha, para quem precisa trabalhar, lidar com o "chefinho" cheio de manias faz parte do pacote. E neste dilema de crise política, financeira e cultural que vivemos o mais importante é agradecer por, pelo menos, termos um emprego. Um trabalho onde o salário vem certinho no final do mês e o restante funciona razoavelmente.
     Ainda não aprendemos a viver de forma equilibrada. Ainda carregamos conosco a herança da cultura "reclamativa" e esquecemos de colocar nossa energia no presente, agradecendo cada segundo onde podemos fazer acontecer. Deixamos passar, principalmente, pessoas incríveis sem lhes dar o devido valor.
     Não temos que nos apoquentar com aquela pessoinha mal humorada que não nos valoriza. Provavelmente carrega uma bagagem cheia de tarja preta, fazendo mal a si mesmo. Se mudarmos o foco, vamos encontrar perto, muito pertinho mesmo, seres humanos com sorrisos sinceros, pessoas com um potencial para uma amizade infinita e aquele ali, quietinho, com um ouvido acolhedor e um abraço quentinho para afastar toda energia negativa.
     Por isso que, quando estou em um dia daqueles, onde nenhuma pílula milagrosa faz afastar a enxaqueca, lembro de gente de verdade. Gente que ri com você, que valoriza seus sentimentos e te aceita pelo que você tem. Se é bom ou ruim, não importa. Essas pessoas não julgam. Simplesmente estão ali, no mesmo barco que você (literalmente) e te entendem. E te apoiam e te dão um pedacinho do coração delas se o seu engasgar em uma batida.

09 janeiro, 2015

Diário de Viagem - Buenos Aires - 2012



Depois de uma conversa boa daquelas, em cima da minha cama, eu e Emanuelle resolvemos da um tempo neste mundo e viajar. Para onde? Buenos Aires? Vamos? “Já estive lá e é muito legal. Na época, junto com Miriam, nos divertimos muito. Foi tudo muito incrível e quero te mostrar os lugares que visitei.”
Então vamos! Viagem decidida, marcamos a data, compramos passagens. Trabalho concluído, famílias comunicadas, hotel agendado, malas arrumadas. Dr. Google sabe tudo. Pesquisamos clima, lugares a serem visitados, transporte, câmbio.
Nos lançamos em uma aventura com precedentes, sorrisão no rosto e gargalhadas de plantão na bolsa para serem sacadas sem discriminação de 22 à 29 de outubro.
Buenos Aires é cinzenta. Um estilo antigo onde poderia ser rodado um filme vampiresco com atores desconhecidos, ou não. Tem uma aura, uma bruma escondida que zomba de nós. Parece uma senhora bruxa, com uma capa muito longa que esconde o rosto em um capuz.
Logo que chegamos tentamos trocas nossos reais por pesos e descobrimos que os as filiais dos bancos brasileiros não estavam funcionando. Fomos à casa de câmbio e comecei a cultivar uma decepção com a cidade que já começava a se mostrar estranha para mim.
Enquanto caminhávamos na rua paralela à 9 de Julio vários homens nos cercaram gritando ofertas de almoço, janta, câmbio e compras suspeitas. Melhor pegar um mapa e decidir o quê visitar.
La Recoleta – O cemitério onde Eva Perón é visitada todos os dias por dezenas de pessoas teve um novo sentido. Manu ficou encantada com as inúmeras estátuas de anjos que se espalham em todas as direções. Resultado: fotos de todos os lugares em todos os ângulos! O clima estava bom, o céu cheio de nuvens e a luz do sol parecia estar atrás de uma cortina. Muito sinistro! Ficamos horas fotografando gatos que posavam para nós. Sim! Gatos de verdade. Amarelos, cinza, rajados, velhos, estropiados, brancos, pretos, preguiçosos, desconfiados. Mas nenhum deles parecia esfomeado. Por que será?
E os anjos que nos olhavam com seus olhos cegos nos faziam silenciar e pensar que, afinal, cemitérios também tem beleza. E mistérios! Os leões, as gárgulas, aquelas asas quebradas com flechas apontando para o alto. No limo entranhado nos moldes, tão antigos, tão abandonados, que davam às formas sombras espectrais, iam captando nossa atenção, colocando nossos olhares por trás das lentes das câmeras, enveredando em um universo extraordinário que foge ao nosso entendimento.
Nós duas nos encontramos perdidas entre túmulos de pessoas desconhecidas e encontramos uma parte nossa que estava perdida. E quando nos ajoelhamos dentro da Igreja de Pilar, aos pés da imagem de Jesus, o Cristo, serenamos. Ele é nosso irmão. E uma magia muito louca nos abraçou. E rimos diante da revolta absurda de um mundo tão injusto. E, é claro, fizemos aquela mandinga antiga de fazer três pedidos sempre que se entra em uma igreja pela primeira vez.
Temaiken – Este parque foi um erro que deu certo. Na verdade queríamos ir para Lujan. Resolvemos visitar os leões e os tigres e saímos empolgadas. Pegamos o metrô, falamos nosso portunhol de todo dia e conseguimos comprar as passagens para o parque. Visitamos todos os buraquinhos onde os bichos estavam e tiramos fotos. Muitas fotos! E só na saída descobrimos que Temaiken não tinha leões. Eles estavam a 30 km da cidade!
Depois desta decepção engraçada ainda descobrimos que os turistas são tratados com um diferencial monetário. Tudo é muito mais caro. Uma garrafa de água de 200ml custa 30 pesos, o equivalente a 15 reais. Fiquei com vergonha e pensei, será que no Brasil isso também acontece? Vemos um “gringo” e resolvemos ganhar em um dia o que ganhamos em um mês? Feio. E muito pobre esse comportamento. A corrupção tem raízes profundas na construção psicológica de um povo. E parece que não vamos nos livrar disso tão cedo.
Pelo menos a fotos ficaram lindas! Arigatô, Nikon-san!
Zoológico de Lujan – É uma fazenda-parque onde leões, tigres e gatinhos de grande porte são criados mamando em cadelas e brincando com gatinhos de verdade (???). Assim eles são tecnicamente domesticados e convivem com os bichos homem/mulher sem querer cravar os dentes em suas jugulares.
O lugar fede. Desculpem-me, cheira muito mal. Imaginem uma área aberta onde patos, marrecos, gansos e afins ficam soltos o tempo todo, passeando entre as pessoas, atacando suas bolsas – sim! Eles nos atacam procurando comida! – entre gatos, cães, passarinhos, pombas e... (usem sua imaginação olfativa!).
Mas tudo é esquecido quando se tem a oportunidade de tocar em um animal que, geralmente, só vemos na televisão, a uma distância muito segura. O cuidado ao entrar nas jaulas desses animais é extremo. Embora tivemos a nítida impressão que todos eles estavam dopados, foi muito emocionante poder posar ao lado de um leão de 200 quilos – com as mãos nele!
Manu deitou no chão, com a cabeça na barriga de um tigre, toda feliz. Na verdade eram tres tigres – completamente apagados! Quando eu passei a mão na cabeça de um deles os treinadores gritaram: “Na cabeça, não!” – tarde demais! O animal sequer piscou. Manu bateu a foto, rápida! Como não passar a mãos na cabeça de um bichano? Gente doida!
Na saída, no final da tarde, novo aborrecimento. É preciso ter muito cuidado com as informações que se recebe aqui. Cada um tem um livro de regras diferente e ninguém conhece a alheia. Na vinda pagamos dez pesos cada passagem. Perguntei três vezes ao motorista/cobrador/informante se poderíamos voltar com o mesmo transporte pagando a mesma quantia. Ele disse: “Sí. Sí. Usted tiene que pagar con diez monedas.” Felizes, passamos o dia no zoológico passeando de camelo, passando a mãos nas trombas dos elefantes, driblando os patos (e afins), fotografando lhamas e focas, e colocando filhotes de leões no colo.
E, surpresa! Depois de esperar meia hora pelo ônibus, eis que o motorista não nos deixou entrar porque a passagem não era dez pesos mas TRINTA pesos! Madre de Dios Santo! Discuti com o motorista, nem me lembro o que disse. Só sei que, furiosa, encontrei os olhos da Emanulle, entre espantados e divertidos. Ela me disse: Gente! Eu não sabia que você sabia falar espanhol tão bem!”. Foi minha vez de ficar espantada. Eu? Falando espanhol? Bem? Ri. Quando nos aventuramos em terras desconhecidas é preciso levar na bagagem muita paciência e deixar a caixa de expectativas em casa. Assim não nos decepcionamos e podemos resolver os problemas com mais racionalidade. Porque no auge da raiva podemos fazer coisas inusitadas até falar bem espanhol!
Feira de San Telmo – aqui é outro mundo! Uma espécie de fenda intra temporal onde tudo é nada e nada é tudo. São coisinhas lindas e feias. Para todos os gostos e desgostos. Você encontra o desnecessário e necessariamente se encontra inundada por inutilidades que você precisa ter. Vários universos de possibilidades. Humanas e materiais.
Onde uma estátua humana de um homem todo branco pega na sua mão com tanta gentileza, te olha no fundo dos olhos e beija seus dedos suavemente. Te dá o braço e te permite acompanhá-lo em uma caminhada imaginária, capturada na fotografia fria. E te agradece, tendo você dado a moeda ou não, com um sorriso enigmático que diz: “você jamais vai me esquecer!”
Teatro Colón – que maravilha. A apresentação que assistimos de uma solista tocando o violoncelo foi emocionante. A arquitetura, a história, o som. Como se estivéssemos hipnotizadas, deixamos que as notas tomassem conta da nossa corrente sanguínea e bombeassem nossos corações no ritmo do arco. Definitivamente ali, nos sentimos outras. E, melhor, como se pudéssemos ser quem quiséssemos. Tanto, que enquanto andávamos na calçada do Teatro dois casais passaram, nos olharam e disseram: “Españolas”.
São momentos como esses que colocam em xeque nossos limites. Não há fronteira para nossos sonhos. Não há beirada de precipício que nos impeça a caminhada. Basta saber de que maneira você alçará voo.
Show de Tango – Assistir um casal dançando tango mexe com todas as células do seu corpo. Dá vontade de levantar, ser rodopiada, agarrada, olhada, despida, amada. Depois de um jantar regado à gentilezas concedidas à damas, assistimos os casais executarem aqueles passos intrincados, ensaiados, com tanta naturalidade que tenho a impressão que eles já faziam isso no útero da mãe, enquanto ficavam ali, esperando a hora de nascer, sem nada para fazer.
É um deleite visual e sonoro e queremos que seja repetido em câmera lenta, para ficar gravado no tempo suspenso, infinito. Mas acaba, infelizmente. Mas quando olho as fotos, sou buscada pelo momento passado e posso ver nos olhos do dançarino a malícia sedutora com que olha sua dama, com a mão na sua cintura, inclina seu corpo para trás e deixa pairando no ar o beijo que não acontece, a milímetros da sua boca. E ela, lânguida, suspira e se deixa trazer de volta para mais um giro.
A cidade – andamos muito, compramos lembranças, futucamos lojas, e tentamos fazer um lanche o que se revelou uma grande frustração. Cansadas de tanto andar, com fome e doidas por um banho, resolvemos comer primeiro e depois voltar para o hotel. Entramos na fila no McDonald’s e esperamos. Chegou nossa vez, fizemos o pedido. Na hora de pagar, a confusão! Aquela não era a fila para pagar com cartão de crédito. Discuti com a funcionária porque eu estava vendo a máquina ao lado dela. Ela me mandou para o outro caixa onde a fila dava a volta no quarteirão. Hilário. Quarteirão com queijo foi o meu pedido. Iria ficar sem o queijo pelo jeito. Eu sei que desistimos da compra e rumamos para o Burger King. Quando entramos na loja nos olhamos com a mesma pergunta no olhar: “Por que aqui está vazio?” Continuamos a rir, sim porque na saída do McDonald’s, frustradas e mal humoradas, ainda conseguimos fazer piada com a atendente numa mistura de significados entre “tarjeta”, “careta”, e outras palavrinhas sórdidas, nas duas línguas, que vão acabar em rimas que todas conhecemos.
Fomos bem atendidas. Pagamos com cartão de crédito. Jantamos. Voltamos para o hotel, tomamos banho e nos atiramos na cama para ler – acreditem – Cinquenta tons de Cinza. E continuamos a rir muito com as personagens e seus conflitos sexuais psicológicos. Ah, la vida es mui bela!
Caminhando pela 9 de Julio fui atacada por um típico bandido pé de chinelo que tentou arrancar um cordão do meus pescoço. Ouro falso. Mas o susto foi dele. Agarrei o braço da criatura e não o larguei. Ele arregalou os olhos que estavam exatamente na linha dos meus, e tentou puxar o braço. Segurei firme. Como não luto nada, não tenho reflexos apurados desenvolvidos pelas artes marciais nem meu corpo é condicionado para reagir neste sentido, fui pega de surpresa e fiquei suspensa entre e o choque de ser violada e o não saber o que estava acontecendo. Em fração de segundos entendi. E ele se apavorou. Conseguiu se soltar de saiu correndo, cambaleando. Atropelou um conterrâneo que vinha na direção contrária e caiu no chão. Eu, Manu e mais ou menos umas trinta pessoas na rua ficamos olhando o pobre-diabo-coitado se afastando, frustrado e com medo.
Sua tentativa de assalto à mão desarmada não funcionou comigo. Enquanto ele se afastava eu ainda consegui ouvir pessoas xingando, gritando, pedindo por Deus, perplexas! Eu fiquei parada, olhando-o se afastar, com vontade de ir atrás dele e arrancar aqueles olhinhos pretinhos daquela carinha inexpressiva dele.
Depois ouvimos relatos de brasileiros e outros turistas que passaram pelo mesmo problema. Com a mesma tática. No outro dia, passando pela mesma calçada eu o vi, sentado ao pé de uma estátua, observando as pessoas passarem. Eu olhei para ele e o vi levantar-se e seguir para a entrada do metrô. Me reconheceu.
Em nenhum lugar do mundo passei por uma experiência assim. As marcas da mão esquerda dele ficaram no meu colo, onde ele tentou arrancar o cordão. Eu entendo quando as mulheres são agredidas e correm para tomar um banho. Foi o que eu fiz. A água é o bálsamo que lava aquela energia negativa que invadiu o nosso espaço sagrado e violou o nosso corpo. Queremos apagar as marcas, o toque, o suor, a sujeira que entrou sem ser convidada.
Mas a vida segue seu curso e tudo faz parte de um grande equilíbrio. A beleza pode ser encontrada em qualquer lugar, basta saber olhar. A Casa Rosada, pombos voando em todos os lugares; a Floralis Generica e seus esquilos. Árvores imensas, sozinhas, sombreando uma enorme praça. Estátuas pichadas, abandonadas, representando tantas coisas que ninguém se interessa mais. Prédios antigos, belos gigantes arquitetônicos, espremidos entre o metrô e o vai e vem das pessoas que sequer olham para cima.
Passamos sete dias diferentes, experimentamos humores, lugares, roupas. Compartilhamos dores, risadas e comemos bem. Gastamos dinheiro, compramos qualidade de vida. Despimos alguns conceitos, nos vestimos com felicidade. Achamos a cura para doenças antigas e abandonamos fórmulas ineficazes.

Viajar é sempre descobrir caminhos internos.

26 julho, 2014

Uma Estorinha Sobre Leitura


Eu tinha mais ou menos uns 10 anos de idade quando estudei em uma escola pública no interior do Rio de Janeiro, Região dos Lagos. Lembro de uma escola sem atrativos, com um espaço enorme que era usado como campo de futebol na hora do recreio. Lá todos os alunos se encontravam para colocar as fofocas em dia, paquerar, sujar a roupa no pó e ainda fingir que ali existia um gramado. Crianças e adolescentes tem uma maneira muito natural de ignorar o negativo e aproveitar o que a vida dá. Simples!
As aulas de ciências eram dadas por um “professor” que na verdade era um médico ortopedista (soube disso bem mais tarde, nem sabia que existia esse nome!). Ele trabalhava no hospital público da cidade, morava noutra cidade e fazia um “bico” na escola. Homem grande, voz poderosa, muito agitado. Ficava indo e vindo pela sala, passeando entre as carteiras, olhando para todos com olhos de águia. Não perdia nada, não nos deixava falar. E mesmo assim, ficávamos com a atenção totalmente voltada para ele. Medo? Curiosidade? Vai saber! Ele gostava de dizer muitos "eus" e se gabava de ser muito bom em tudo que fazia! Naquele dia, resolveu fazer uma “leitura coletiva” e foi aí que eu percebi que ele iria me VER, ali, no fundo da sala, onde eu pensei que estivesse invisível!
Sim, invisível! Sendo a mais nova da turma eu não tinha colegas-amiguinhos que sabiam dos meus segredos (ainda estou procurando algum), compartilhavam meu material e dividiam o lanche. Não! Totalmente isolada e tímida eu comecei a entrar em contato com meu mundo solitário muito cedo. Já fazia coleção de gibis, lia o que aparecia na minha frente, observava tudo, escutava e analisava ainda mais.
Quando o professor gigante explicou como seria o exercício entrei em pânico. Minha respiração desapareceu! Oxigênio limitado e adrenalina em quantidade. Tô perdida! Enquanto ele regia a leitura sobre algo que não tenho mais a mínima ideia do que era, passando de um para o outro, conforme os parágrafos eram eliminados, eu contava todos, desesperada, rezando para que não sobrasse nenhum quando chegasse a minha vez.
Vã esperança – ele simplesmente pulou para a minha fila e disse: “Você aí, na última cadeira!” – eu fiz de conta que não era comigo, não tirei os olhos do livro. Alguém, para me ajudar (estou tentando lembrar o nome da criatura para fazer um feitiço, ainda!), disse: “Elaine, professor!”. Levantei a cabeça e olhei em volta. Sabe aquela sensação que você tem quando o mundo para e você vira o centro, como se uma catástrofe fosse acontecer e você está ali, totalmente impotente, à mercê do tudo? Pois então – os vinte ou mais colegas, todos olhando para mim, inclusive “o professor”, com um sorrisinho sarcástico, na boca. Eu fiquei olhando, sem respirar. Esperando. “Elaine, pode ler o próximo parágrafo!”
Foi um dos momentos em que eu morri. Sim, porque se você for pensar na sua vida pregressa, vai ver que já morreu várias vezes. Olhei para o livro, encontrei o parágrafo e fiz um esforço enorme para respirar. Ouvi novamente “o professor”: “Vamos, pode começar!”
Eu comecei a ler, provavelmente sem voz, sem ar, sem nem estar ali. Meu espírito poderia ter sido abduzido para outro mundo e eu nem teria percebido, aliás, era exatamente o que eu gostaria que tivesse acontecido. Que nada! Antes que eu tivesse terminado de ler o bendito parágrafo, “o professor” disse: “Chega!” – Levei um susto. Levantei os olhos e fixei meus olhos no umbigo dele. Não iria conseguir olhar para seu rosto, provavelmente porque já tinha imaginado um monstro com olhos vermelhos, cabelos espetados e uma boca cheia de dentes saltando para fora. É, minha imaginação era muito, muitíssimo criativa! Ele continuou: “Você lê muito mal. Nunca vi ninguém ler tão mal assim!”. Depois ele falou mais algumas coisas que eu já não ouvia mais. Os olhos continuavam em cima de mim, julgando, debochando, com pena. Me encolhi. Me recolhi ainda mais. Estava ausente daquele mundo. Morri.
A partir daquele dia continuei lendo meus gibis com uma pequena diferença. Me trancava no quarto, no banheiro, no fundo do quintal e lia em voz alta. Lia muito. Lia até ficar rouca. E ria... ria demais! Comecei a perceber que a minha voz fazia tons diferentes, sons distintos, oitavas altas e baixas e, para cada personagem, uma personalidade acústica distinta. Ah, meu mundo estava mais rico! Comecei a falar sozinha e fiquei mais interessante, pelo menos, para mim mesma.
O tempo passou, a timidez deu lugar a outras coisas (não vou falar disso aqui agora!), viajei, mudei, morri mais algumas vezes, até que um dia fui parar na Escola Normal de Brasília, em uma turma com 52 meninas. Que fauna!
Logo na segunda semana, nossa Professora de Técnicas de Literatura (me corrijam, meninas, se errei o nome da matéria) nos fez ler, dividindo o texto aleatoriamente entre nós, João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Eu acompanhava o texto, apaixonada pelas rimas, mergulhada em cada palavra. Percebi a preocupação da minha colega-amiga Baiana (tinha conseguido uma!), pois ela sabia da minha história. E quando a Professora falou meu nome, para que eu desse continuidade à leitura, senti o olhar da minha amiga no topo da minha cabeça (ela estava sentada à minha frente). E foi ali, no meio da Morte e Vida Severina que eu-menina Morri e Vivi mais uma vez. Eu li, encontrei o oxigênio que eu precisava nas letras, no sentimento, na maestria daquele autor. E continuei lendo... percorri todas as linhas, andei por todas as rimas, caminhei em cima das palavras com minha voz. E por alguns minutos eu sequer me ouvi. Era puro silêncio, e eu continuava lendo. Li de dentro para fora e de fora para dentro. Mergulhei em um êxtase sonoro e flutuei em mim mesma, estava inteira e dispersa em milhões de pedaços, tudo ao mesmo tempo.
Quando percebi que não havia mais nada para ler, pois tinha acabado o texto, voltei ao mundo presente e levantei a cabeça. Todas as minhas colegas e a Professora estavam com os olhos fixos em mim. Baiana sorria. Um sorriso grande, acompanhado por olhos brilhantes que, neste exato momento, me fazem chorar com a lembrança. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio, o silêncio coletivo: “Nossa! Que lindo!”
Olhei para a Professora. Com um sorriso, ela disse: “Você leu muito bem. Tanto, que nem interrompi. Foi a melhor leitura de texto que já ouvi. Parabéns.” Morri novamente, incrédula.
Hoje, quando penso nesses dois episódios da minha vida, sou grata. Aprendi com “o professor” que deve-se ter cuidado com o que dizemos aos outros em público. Também ele despertou em mim a curiosidade pela anatomia humana, quando contava suas histórias e me fazia querer saber mais. Aprendi que tudo tem um tempo certo e cada pessoa pode nos ensinar muito, para o bem e para o mal, depende do ponto de vista, da sua evolução e do momento. Infelizmente não me lembro do nome da Professora, mas não esqueço seu sorriso e suas palavras. Aquele “parabéns” que desenterrou minha autoestima.
Tudo é tão complexo e ao mesmo tempo tão simplório. O que interessa realmente é como achamos o caminho na pedra. Não importa o tamanho ou como ela está colocada na estrada. Observe, espere, respire. E nunca, em nenhum momento, subestime nada!

Para os curiosos, a parte do livro Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, que li em voz alta, para a turma 205, quando eu tinha 20 anos. Na minha opinião, lindíssimo!

 O Retirante, chega à zona da mata, que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem.
— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um banguê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

06 dezembro, 2013

Diário de Viagem - JAPÃO - segunda e ultima parte



E lá vamos nós, outra vez, a segunda parte da viagem...



Dezesseis de outubro
 Sagamihara. Trocamos novamente de cidade e o mais engraçado é a quantidade de bagagem que carregamos. Eles enlouquecem. Também, quem manda nos dar presentes o tempo todo? A impressão que dá é que nunca lidaram com isso e acham muito estranho.
Hoje de manhã nos apresentaram a mais um bando de japoneses que eu nunca lembro o nome. E sempre com o ritual da troca de cartões... já tenho um saco cheio deles!
Finalmente, depois de uma volta no parque para ver o ginásio e sei lá mais o que, almoçamos – comida japonesa. 
Sênior High School com estruturas físicas mil, cheio de loucuras tecnológicas. A mensalidade é de mais ou menos 200 reais por mês. A limpeza é feita pelos alunos e não se pode mudar a mobilia de lugar. Muito aconchegante!
Tudo é muito silencioso e alguns dormem na aula. Também pudera! A energia é toda canalizada para a bunda. (que coisa feia para se dizer!)
Fiquei impressionada com o nível técnico das alunas de artes.Desenham com carvão qualquer coisa. Algumas trabalham por mais de dez horas, apagando com pão aquilo que não querem. Isso mesmo – pão!
O curso de música também impressiona pelo nível técnico das pianistas. Teve uma que deu um show. Todos os professores têm que ter nível superior e trabalham bastante. 
Quando não estão dando aula estão supervisionando ou fazendo parte de algum clube na escola. Ocupados o tempo todo. Só existe direção e vice-direção. Não vi nenhuma mulher dando aula, só homens. O professor me disse que uma vaga para lecionar é bastante concorrida e eles têm que mandar currículo e serem entrevistados (se tiver a vaga). Tivemos que tirar os sapatos para entrar na escola. O que impressiona também é a disciplina. Todos seguem o que o professor diz. Perguntei sobre namoro e matar aula. Ele disse que não acontece. Mas se acontecer? Fiquei sem resposta. Simplesmente sorriu e me olhou como se eu fosse de outro planeta. E sou: Planeta Brasil. Onde matar aula faz parte do currículo e namoro é conteúdo disciplinar...
Iamaguchi disse que raramente as portas de uma escola são abertas para estrangeiros.
Fizemos algumas anotações em uma folhinha para recordação e eles colocaram em um álbum. Quanta honra!

A biblioteca estava cheia de alunos e eles conversaram despreocupados. Estavam estudando para os provões. Aqui eles têm que tirar um sete como média para passar. A reprovação é inexistente. Provavelmente eles se matam se isso acontecer (o que geralmente acontece, como causa principal do suicídio entre os adolescentes japoneses), pois não passar de ano significa vergonha para a família.


Depois da escola fomos ao Aerospace and Science Research Institute. Eles fabricam satélites para verificar níveis de raios-X infravermelho, sol, lua, cometas, etc. Passamos pelos enormes hangares de testagem e fabricação. Visitamos a sala de controle de um dos satélites. Um deles estava a 292 dias no espaço. É bem interessante.
Após descer com todas as malas novamente nossos “pais” vieram nos pegar. Minha família é muito simpática. Tem o avô Kobayashi, que por sinal é Akira – a velha enxutíssima casada com ele a quem a menina se referiu como step grandmother, o casal e 4 filhos. Conheci o guri e uma das meninas que vai estudar para o teste amanhã.

O banheiro é uma caixa de surpresa. Imagine um local que deveria ser íntimo com portas de correr para todo lado. A impressão que dá é que uma delas vai abrir a qualquer momento. Tomei o banho mais rápido da minha vida, de olho nas portas, esperando que abrissem a qualquer instante. A casa é linda, no meio do mato, no meio da cidade. Achei que ia ficar em cima da garagem... vã esperança! Estou numa espécie de sala sagrada da casa. Tem altar, dizeres e quadros nas paredes e uma flor d’água incrível! Parece de mentira! Arranjo feito especialmente pra mim - Ikebana. Ela me disse que ela mesma fez.


A família é linda! Senti-me à vontade, conversamos, mostrei as fotos. Parecia que estava em casa com meus irmãos e meus pais. Eles são super simpáticos. O jantar estava divino. Depois tomamos café com bolo de queijo. Que delícia! Todos são ótimos. Os velhos não apareceram. Estou adorando tudo.


Dezessete de outubro
 Mais um dia se vai... ou vem?! Hoje foi difícil me manter acordada. Fomos ao Soyu-ji temple budista. E a Yamaguchi tentou – com seu inglês terrível, traduzir as coisas. O pior é que de vez em quando eles fazem questão de repetir coisas erradas achando que é certo. A língua japonesa tem palavras variadas do português e do inglês. Por exemplo, antigamente não existiam banheiros então ninguém inventou uma palavra para isso. Aí eu caí na besteira de perguntar como se dizia banheiro em japonês, para uma eventual emergência, e me disseram: TOIRÉ! Aí eu fiquei pensando e descobri que toiré é a versão ajaponeizada para TOILET, do inglês, banheiro. Ah! Que fantástico!

Fomos à prefeitura, ganhamos mais presentes e depois fomos ao “shopping”. Eles são meio loucos às vezes. Ficam discutindo horário em vez de resolver logo. Aí eu e a Carla saímos rápido se não não daria tempo para mais nada.
Me estressei pensando nos meus problemas com os meus alunos, na minha terrinha. Como eles pensam que sabem! E debocham e acham graça e sempre menosprezam tudo. As vezes penso em desistir desta profissão e fazer algo diferente, mas tenho que ter paciência.


Dezoito de outubro
Ebina Keyaki - Fomos ao shopping hiper caro e jantamos com um padre católico que fala francês, russo, japonês, português e inglês. Fomos super bem recebidas e passeamos de ônubus até Yokohama, a capital de Kanagawa. Fomos na torre mais alta do oriente com um elevador super rápido. Quando pensei em entrar já tinha que sair.

Conheci o Huck. Legal, cheio de mesuras....kkkk, se acha lindo e inteligente... putz! E ainda fala mal dos próprios japoneses... que feio! Só porque viajou e sabe um pouquinho mais. O grande lance da viagem é descobrir que o melhor lugar do mundo é a sua casa. Ele ainda não aprendeu isso!
Os japoneses são louquinhos... quem não é?


Dezenove de outubro
 Coca-cola – fiquei furiosa com a Yamaguchi dizendo que as fábricas do Japão têm o melhor controle de qualidade do mundo. Será?
Fábrida da Hitachi. Olhamos a linha de montagem e almoçamos a caixinha preta. To ficando enjoada disso. Mas, pelo menos não vamos passar fome.
Fiquei impressionada com o retro projetor um pouco maior que um toca-disco de carro. Eles abusam da technologia aqui. Sem contar com o celular que é um relógio acionado pela voz. Muito lindinho. Perguntei se tinha rosa...kkkk
 
Hospital de tratamento de pessoas com deficiência física e mental e acidentes ou cirurgias.
Vimos as instalações para cinesioterapia, eletroterapia, hidroterapia, o ginásio, o campo de atletismo para jogos paraolímpicos, a sala de confecções de aparelhos. O hospital é mantido pelo governo, atende internos e externos, os médicos e fisioterapeutas são mandados pela universidade de Kanagawa.

O karaokê foi fantástico. Abertura solene. Campai! (expressão usada para brindar! Saúde!) Ah, lembrando sempre que não podemos dizer tim-tim NUNCA! Afinal, essa palavrinha em japones significa as partes íntimas da mulher... kkkkk. E nós nem podemos brindar a isso! Quanto preconceito! Cantamos – 1 musica em japonês, 1 em japonês, tears in heaven (eu cantei), mais uma em japonês, Beatles (eu cantei novamente com a ajuda das meninas) e aí ACABOU! Eles nos disseram que tínhamos 12 minutos para escolher uma musica e cantar. Foi um stress. Não cantamos. Solenidade de encerramento com discurso do padre, do presidente, tss, tss... Palmas pra encerrar. 123,  123, 123, 12...
Fomos embora as 9h30 – EM PONTO!

McDonald’s
Cheeseburger com batata frita. O paraíso! As 10h nos expulsaram do lugar. Eles tocam a música “Adeus amor eu vou partir...” depois tocam um relógio e um monte de aviso pAra nós darmos o fora. Como não estava funcionando direito, e continuávamos a comer, eles simplesmente apagaram as luzes, e ficaram todos encostados no balcão nos olhando. Que cena cômica! Voltamos a pé para o hotel. Essa foi a nossa grande noite livre.

Vinte de outubro
 Ebina – ultima noite em Ebina. Hoje encontramos com a Myumi. Uma brasileira de Belém do Pará que mora aqui há dez anos. Veio com 23, já casou, montou um restaurante e agora está tentando ter um filho.
Os japas são extremamente extressados com horário. Hoje a reunião era às 10h e eles nos chamaram às 7h.
Incrível, é uma paranóia.

Só passeamos. Fomos a uma usina com museu e tudo. Miyagase Dam.
Filmamos como se faz a massa soba que é disperdiçadamente servida fria com aquele molho soyo horrível.
Depois visitamos uma escola onde o padre queria ensinar português – que piada! Bom dia!
Pobre bicho! É bem prestativo, mas parece que come coisa podre. Sai um cheiro horrível da boca dele. O português dele é terrível e ele faz que não entende o que falamos.
Visitamos uma fábrica de cerveja bem legalzinha.


Afsugi Beer Corporation – falado em japonês – Birú!
Depois fomos ao churrasco. A entrada – peixe cru.
Virou uma bagunça. Colocamos o sushi na grelha e assamos tudo. Eu peguei minha sardinha, usei os pauzinhos para abri-la, tirei todo o “conteúdo” e coloquei na grelha. Eles me olharam e perguntaram por que eu tinha feito aquilo. Simples! Vou ensinar para vocês, como se faz no Brasil! E não é que eles gostaram???

No meio da janta apareceu um especialista em Kataná. Deu uma aula. E o povo mal educado sequer ouviu o que ele disse.
Ele mostrou uma lâmina do século dez, curva, que veio da China. Cada uma tem uma função diferente. As curvas eram para golpes laterais quando se atacava à cavalo. As mais retas para combate frontal. Dependendo da família ou da origem as lâminas eram mais ou menos retas.
A lâmina que ele mostrou vale 5 milhões de dólares. Todas as Katanás pertencem a família dele. O orgulho era óbvio ao mostrar esses artefatos tão raros. Ele suava muito no palco. Dava aula pra mim. Eu aparentemente era a única que estava prestando atenção na sua narrativa.
Ele me convidou a subir ao palco e eu fui, toda desconfiada. Me deu a honra de pegar uma Kataná, a maior, de lâmina reta. Eu disse não e ele insistiu, fez questão.
Respirei fundo e peguei a espada. Leve, muito leve. Me preparei para algo mais pesado e fiquei muito surpresa com tamanha levesa num objeto tão mortal.
Ele me ensinou uma postura de ataque e o que fazer. Peguei o punho com as duas mãos e fiquei na posição. Eles se afastaram... por que será??? Foi uma sensação muito boa. Assistir filmes sobre isso é uma coisa. Ter nas mãos a arma branca mais mortal do mundo, outra!


Vinte e um de outubro
 Chegamos a Yokosuka no hotel da conferência – Yokosuka Prince Hotel
O padre enlouqueceu. Dava saltitos dizendo estar em território americano que ali só se falava em inglês. Que coisa mais troncha.
Encontramos vários conhecidos ao longo desses 20 dias que nos cumprimentaram com alegria. Ioki-san estava presente e também conhecemos Richard King o próximo Governador do Rotary 2001/2001. 
Saímos depois e fomos visitar Miura Peninsula onde tinha dois cata-ventos para gerar energia eólica. Tiramos fotos e ficamos impressionadas com nosso tradutor que disse que a mulher dele estava para ganhar neném, hoje! Vai para casa, criatura!
Depois fomos a um restaurante japonês muito lindo e ganhamos uma caneca.
Finalmente, encontrei a caneca. Minha cara de espanto-felicidade (depois de muito procurar) foi óbvia. 


Visitamos algumas lojas e fomos ver o Destroyer MIKASA e seu orgulhoso almirante reformado de 70 anos. Tivemos tapete vermelho na entrada com honrarias e tudo. 









Vinte e dois de outubro
 Hoje foi o grande dia da Conferência do Distrito 2780 de Kanagawa.
Estamos em Yokosuka Prince Hotel com 20 andares. Este hotel tem estrutura para agüentar um terremoto de 9.8 na escala Richter. Visitamos as fundações do edificio e fiquei impressionada com as imensas rodas de borracha que protegem as pilastras como se fossem um elástico para dar “flexibilidade” à estrutura e não deixa-la desabar.
Sexta feira nós sentimos um terremoto, o terceiro.
Tinha rotariano que não acabava mais.
Encontramos vários conhecidos por todo lugar. O teatro onde foi realizada a conferência foi construído pelos americanos depois da segunda guerra mundial. Eles destruíram nada mais justo que construir!
O padre saltitante estava presente para ouvir e ver a banda Naval americana tocar. Foi quarenta minutos de apresentação comparado aos cinco minutos que nós entramos e saímos do palco e o Kipper fez um discurso terrível. Ele atropelou as palavras e o pessoal ainda cumprimentou dizendo que foi ótimo.

O LENÇO
 Nós quatro, toda bobas, colocamos os lenços nas costas, sobre os ombros, e aparecemos na conferência, pensando que estávamos abafando, e, acima de tudo, homenageando os japoneses com o presente que ganhamos. TODOS nos olharam e nos acharam “lindas”. Vieram nos perguntar se no Brasil se usava este tipo de coisa “deste jeito”. Depois descobrimos que o lenço é usado para embrulhar comida. Que legal. Nós fomos as legítimas farofeiras. Também, como iríamos saber que um pano lindo daqueles, coloridos, cheio de estampas e enorme, era simplesmente uma toalha de prato comum para embrulhar marmita? Rimos muito. Foi um mico geral. Gafe coletiva. Ainda bem!

Vinte e três de outubro
 Continuamos em Yokosuka.
Hoje de manhã choveu. Mari não está muito legal. Tem dor de cabeça por causa da sinusite, está fungante e roncante. Tem alguma coisa no ar que está dando alergia nela. Vai ver é o ar do mar.
Estamos na reta final e começamos a sentir saudades, estamos sofrendo de uma espécie de síndrome de saudades down. Tem hora que bate uma tristeza...
Pela manhã fomos a coorporação de combustível nuclear do Japão. Ela produz combustível que abastece 51 usinas nucleares no Japão. Por que será que o Americano não vem aqui dizer que isto é contra a natureza??? Palhaçada!
O urano chega em forma de rocha, é moído e condensado em pequenas plastilhas cilíndricas ROD, que vão ser colocadas em cilindros de um metro que, juntos, formarão uma espécie de conjunto para alimentar o reator. São fabricados 10 conjuntos por dia com 200 pallets. Incrível.
O passeio pela fábrica foi rápido e mediram nossa radiação no final. Tudo ok. Ganhamos hashis.
Depois fomos ao centro de desenvolvimento e pesquisa NTT de Yokosuka.
É impressionante a qualidade de imagem e som em 3D que nos mostraram. Vimos a technologia nas telas com resolução de 6000 melhor que televisão. Imagem digital.
Depois vimos uma televisão que trabalha como um livro quando toca na tela. Uma televisão com imagem tridimensional.
Fomos também ao Instituto de Pesquisa DOCOMO NTT de Iokosuka. O sistema de amortecedores do prédio é feito com borrachas. Uma espécie de sanduíche com aço. Extremamente flexível para agüentar terremotos
Estão construindo um prédio novo. Este sistema absorve um terremoto reduzindo seu impacto em um quarto.
Visitamos as salas de som com absorção de radio, etc,
Vimos um filme com som poderoso numa sala especial.
Jantamos no navio restaurante japonês e cantamos karaokê. Mari recebeu declaração pelos Beatles e ganhou carona de guarda-chuva. Só ela ganhou carona. Tava dodói.
A Ihoko (coitadinha) tava indo bem bela de carona no guarda-chuva quando de repente Fukuribo puxou o guarda chuva deixando-a na chuva para vir correndo na minha direção... sinistro!


Vinte e quatro de outubro
 Última noite em Yokosuka. 
Hoje fomos a ultima prefeitura fazer visita ao prefeito. Ganhamos um chaveiro lindo.
Depois ganhamos flâmulas e mais um livro escrito em kanji com assinaturas e mensagens das pessoas que conhecemos na reunião do Rotary de Yokosuka North.
Fizemos uma visita a companhia Nissan de Motores. Na fábrica de Oppama eles fabricam carros. Visitamos a linha de montagem. Não nos deixaram tirar fotos. Nos levaram para fazer um test drive na pista especial. Aproveitamos para gritar bastante... até parece que o piloto estava correndo muito. Fingimos que ele estava e ele ficou todo felizinho... como é fácil agradar os homens!
Depois tivemos um tempo livre.
Aqui eles fumam muito e o tempo todo. Parecem chaminés, não é a toa que estão sempre estressados correndo atrás do relógio.
Mari está cansada. Sempre com sono.
Só kipper parece bem. Continua no mesmo esquema.
Não vejo a hora de chegar em casa



Vinte e cinco de outubro
 Kamakura – quarta-feira. Fizemos nossos relatórios para entregar para Hinoku. Fomos agradecidos e educados mas escrevemos o que achamos. Cigarro, tempo (nervoso), e mais algumas coisas.
Fomos recebidos pelo grupo e mais light do distrito. Passeamos e visitamos um museu onde se preserva uma arte extremamente antiga de entalhe em madeira com mais de vinte etapas de acabamento na peça para se obter o laqueado vermelho denso. Lindíssimo.
Tem peças de 700 anos como uma mesa e potes de guardar peças de xadrez de cento e vinte anos.
O artesão, um senhor de 70 anos mais ou menos, curvado, magro, flexível, concentradíssimo no que estava fazendo, com os dedos enegrecidos e avermelhados pelo produto, pó e atividade de tanto tempo. Parecia feliz com nossa visita. Foi super simpático. Uma figura inesquecível. Gostei dele imediatamente.

O idiota do Takanaka me disse umas bobagens sobre não poder ir a Tokyo dar uma olhada nos computadores. Isso porque Kipper, Carla e Mari pegaram o trem e foram compar os PCs. Rotarianos são muito ocupados, ele disse. É impossível porque o programa não pode ser mudado. É impossível, eu sei, to te dizendo para esquecer, por favor.
Foi estranho – eu encarei o japona e ele me encarou. Não gostou nem um pouco do contato visual direto, desafiador e questionador, de minha parte, claro. O cara ficou nervoso, fumava um cigarro atrás do outro. Veio com um papo estranho pro meu lado dizendo que tinha uma programação pra me levar numa escola. Eu disse, tudo bem, estou aqui, vamos lá. Yhoko também está no hotel. Afinal, segundo o coordenador da área, eles combinaram contigo, e foram a Tokyo. Se você está se sentindo preterido, problema seu.
Ele não gostou nadinha deu ter discutido isso com ele. Por ser mulher e por simplesmente debater. Disse a ele que nós brasileiros não conhecemos duas palavras – IMPOSSÍVEL e PROIBIDO. Isso não existe no nosso dicionário.
Ele me olhou, crédulo, e acendeu mais um cigarro. Me retirei. Estava cansada e poderia partir para a violência, sem sequer saber que tipo de especialista em luta marcial ele era! Mesmo porque, depois de segurar uma Katana com minhas mãos, eu estava pronta para tudo!

Depois na janta, todos estávamos juntos, e ele quis me levar para visitar a escola de inglês dele. O jantar demorou tanto que não deu tempo. Tanta frescura para comer carne crua. Aliás, me perdoem. O bicho cru ali no prato merece respeito.

Fizemos nossos relatórios e conversamos até tarde – detalhe, a íngua nos pediu para fazer um discurso em japonês! Há há !
Na hora da festa da despedida ficou com a cara no chão. Nem sequer se despediu de mim. Bem que eu podia ter falado umas bobagens maiores pra ele.

Vinte e seis de outubro
 Quinta-feira. Último dia de atividades. De manhã fomos visitar uns templos de três portas. Os portais eram em homenagem ao homem que cuidava do templo.
Fomos ver o grande Buda com mais de mil anos de idade.
Tiramos fotos e voltamos para almoçar num restaurante italiano. Que piada!
Prato de entrada – salada de peixe cru. Prato principal – pato assado com umas frescurinhas.
Ainda bem que o pão é sempre delicioso!
Depois eu fui visitar uma elementary school com o Dantcho e as meninas voltaram a pé para o hotel. A escola é uma loucura. Tem trezentos e onze alunos incluindo uma ala para alunos especiais. Cadeira de rodas, devicientes mentais, auditivos e mudos.
Tem de tudo lá dentro e o espaço convida a estudar.
Voltamos a nos preparamos para o Farewell party. Ninguém das minhas host family estavam lá. Vai ver não gostaram muito de mim.
Fizemos nossos discursos e a idiota aqui chorou.
Ganhamos mais presentes, inclusive uma máquina fotográfica (acredito que eles pensaram, observando minha Agfa... coitadinhas, nem tem uma máquina decente!).
 A noite foi ótima. Cada uma de nós numa mesa. Carla comeu ovo podre preparado numa caixa de madeira e dormido por 20 dias. Acho que tentaram tirar o pinto mas não deu certo.



Vinte e sete de outubro
 Ultimo almoço no hotel
Achamos que a entrada tinha uma carninha mas veio crua. Parece praga! Nem água quente!
O almoço – pasta a carbonara – foi uma piada. Carbonara com camarão, com cabeça e tudo. Um camarão minúsculo com umas barbas de quase dez centímetros e olhinhos pretos.
É impressionante como deturpam tudo por aqui.
O almoço italiano de ontem não teve nada de italiano. Massa? Não vimos nem na fotografia.

Dia da partida!!!
Soki-san e Okada-san vieram conosco até Narita de ônibus. A mala do dantcho pesou 45kg e a da Ihoko abriu.
Fizemos umas comprinhas para nos livrarmos do iens e passamos pela imigração.

Antes de sair do hotel fui passear na praia. O pacifico é diferente. Cor diferente, gosto diferente! A areia da praia é escura, devido ao solo vulcanico. Bom lugar para pensar. O clima estava bom, com cara de chuva. Toda praia é boa. Vai ver viemos do sal, da água, da essência do mar.

Fiquei observando um bando de crianças de uma escola primária ajudar os pescadores a puxar a rede com peixes. Criança é igual em qualquer lugar. São únicas, autenticas, felizes.

Infelizmente em algum momento na nossa vida nos preocupamos tanto com o "ter" que esquecemos o "ser". 
Aí culpamos nossa infelicidade no outro, no trabalho, no tempo.

"Felicidade existe, mora em qualquer lugar, basta apenas o amor encontrar"

Curiosos