Navegando...

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Trabalhamos embarcadas, offshore, dentro d’água, como queiram. As palavras para explicar essa maneira de ganhar a vida, ou ganhar o sagrado dinheiro para viver a vida, tem muitos nomes. Mas, o importante é o que se ganha na convivência. Neste mundo muito diferente, temos o privilégio da intimidade quando descobrimos a beleza no interior dos seres mais incríveis. Verdadeiros presentes em palavras pois é o que podemos aqui compartilhar. Pérolas que não vão adornar o corpo mas com certeza vão fazer crescer o valor da alma de cada uma de nós. Se nem tudo que se mostra é belo, não importa. Se percebermos o equilíbrio, vai ficar tudo bem!

03 dezembro, 2013

Uma voltinha pela Europa




“Quando você começa a envolver o emocional em tudo o que você faz, você se acorrenta ainda mais.”
Esta foi a primeira frase que encontrei, por incrível que pareça, depois de dois anos, em um caderninho, minhas memórias sobre a viagem que eu e Sandra fizemos pela Europa. Um loop da Inglaterra até de volta a ela! Passamos pela França, Italia, Suiça, Alemanha, Holanda e Belgica. No meio disso tudo, em 21 dias, muitas impressões. Aqui vão algumas delas.

Anjos.
Você acredita em anjos? Eu sim. Depois de visitar uma amiga de infancia em Londres, ela nos indicou o caminho pelo “tube”, metro de Londres, para chegar até Canada Water e nos encontrar com o grupo. Fácil! Interessante como os anjos nos ajudam nas simples descobertas. Grandes espiritos de luz. Obrigada. Nunca tinhamos estado ali e não sabíamos exatamente para que lado seguir. Então, procurando o lugar, eu vi escrito no carro o símbolo da excursão “Expat”. Quando chegamos perto o que vimos eram latas de lixo verdes, e pronto! Não tinha nada escrito! Rimos muito. Eu e minha dislexia angelical.

Amigas.
O convívio nos dá a impressão que somos simples e bem entedidas. Errado. Estamos sempre conjecturando sobre os outros e cometemos o erro de não perguntar – e perdemos a melhor parte. Nos afastamos da essência e ficamos no superficial. Nos deixamos levar pelos nossos próprios valores e esquecemos que a outra também tem um coração. Igual ao seu!
As pessoas buscam amor sem saber que ele está diretamente ligado à liberdade.

Paris
Bon soir de araque. França é latina, suja, barulhenta, velha e cinza. As pessoas se julgam mais importantes e os homens tem aspecto andrógeno. Igual e muito diferente. Vive le Brasil! A arte, a cultura, é claro, imcomparáveis, como qualquer outra.
Mas o pão, não! Quem chamar o nosso pão de pão francês merece cadeia. Aqui o pão é duro e torrado. Como bons brasileiros melhoramos isso também.
Aos olhos virgens do visitante tudo é muito lindo, digno de fotos. Enquanto paramos para registrar 360 graus de história, os nativos passam por nós com os ouvidos tapados com earphones dos i-qualquer-coisa e sequer percebem que os degraus de mármore da praça estão tão gastos que formaram um outro degrau.

O Louvre.
É o único lugar limpo da cidade. Impossível conhecer tudo em um dia. Precisaria morar aqui para conhecer tudo. Monalisa – Gioconda – está perdida e solitária numa proteção de vidro em uma sala enorme com a Santa Ceia mais maluca que já vi alguém pintar, do outro lado. E lá está ela, olhando todos com aquela cara infeliz. E os que olham para ela, pensam que são felizes por estarem ali, fotografando-a. É uma sinfonia de diafragmas estalando por todos os lados. Foto da pintura atrás do vidro. O que é mais importante? Ter a foto? Provar que viu a Monalisa? A presença na sala pouco significa. Está mais distante do que Da Vinci agora. Se você conseguir uma foto pela internet vai conseguir ve-la melhor.
E nos perdemos no metrô, novamente! (risadas)
Choveu, fez sol, fez frio, fez calor. Dia perfeito em Paris!
Ah, fui até pedida em casamento. Mas quando ele pediu dinheiro, eu desisti. Não tinha dote!
É absurdo a quantidade de situações inusitadas que passamos. Ser turista é uma arte!

Sonhos.
Alguém me disse, ou foi um sonho  –“ Eu não quero que sejamos amigos. Não é uma questão de amizade. É uma questão de energia! Siga seu coração e você não irá se machucar. Acredite nas coisas que você sente. Seja egoísta um pouquinho. Não é uma maldição. É um caminho para a liberdade. Suas escolhas vão guia-la bem.”

Avignon.
Tudo muito deserto. Jantamos salada e um frango esquisito. O local da cidade onde ficamos é cercado por muros onde no centro é o palácio do Papa. Muito lindo. Muito antigo. Muito sinistro. Saímos de manhã para fotografar com um dos colegas indiano da excursão. Ele mora no canadá a 10 anos e é meio maluco. Afinal, quem não é? Engraçado como algumas pessoas sentem vergonha das suas origens. Ele disse que é canadense mas tem um sotaque denunciante. Incrível! Depois de muito fotografar as pedras voltamos correndo na chuva. Na hora de voltar ele queria ir para o outro lado. Depois de uma brevíssima discussão eu simplesmente saí andando pela direita e Sandra me seguiu sem pestanejar. Ele cedeu, pois então ficaria sozinho, e veio atrás de nós duas. Meu GPS natural funciona maravilhosamente bem. Chegamos no onibus a tempo! Obrigada!

Vinhos.
Visitamos um castelo que fabrica vinhos na região de Burgundy. Compramos vinho (pagamos caro). O vinho espumante é delicioso! Ganhamos rolhas... veja só! Gostei do cachorro que nos recebeu em uma espécie de porão onde guardam os imensos barris. Bicho preto, sociável, simpático. Uma cadela. Tiramos fotos. Ela era mais interessante que o cheio de álcool que estava no ar... e a chuva, e o mofo, e os fantasmas...

Pont Du Gard.
Ponte Romana. Linda! Mais uma caminhada na chuva. As fotos estão fantásticas. No caminho, um monte de nozes do Tico e Teco. Arrecadei algumas que estavam no chão. Elas estão aqui, agora, em cima da minha mesinha, olhando pra mim... vieram de tão longe!

Riviera Francesa
A Riviera é linda. A paisagem fantástica! Não é a toa que uma casinha aqui custa um milhão de dólares! Mais memórias de filmes. Mais memórias de vidas que estão guardadas em algum lugar.

Perfumes
Visitamos uma fabrica de perfumes chamada Fragonard. Comprei um kit pequeno e caro. Tudo é caro ou eu não ganho o suficiente para simplesmente deixar que o dinheiro escoe pelos meus dedos sem fazer contas. Afinal, fazer uma viagem e ficar contando moedas não combina. Como disse minha amiga Luciana, quem converte não se diverte. Então, vamos aproveitar! O kit com 5 fracos de aluminio irão durar 9 anos, segundo a linda e maravilhosa vendedora/quimica/marqueteira da perfumaria. Acredito nela desesperadamente. Afinal, quero que o perfume dure mesmo! Minha companheira de viagem comprou um kit juventude.... muitas e muitas risadas... juventude está no espirito. Vamos rir!

Nice.
Muita gente linda. Homens lindos. Os homens tem uma fisionomia perfeita. Não é a toa que um colega saiu do armário e veio morar aqui. É perfeito! Caminhamos por toda a cidade com um mapa e o celular com GPS da Sandra. Adoro essa tecnologia. Pegamos o onibus e fomos até a parte mais alta. Andamos de trem. Tudo é muito simples e civilizado. Não existem roletas no transporte público. A consciência coletiva é imbatível. Ninguém te cobra nada. Simplesmente você faz porque todos fazem e é assim que o sistema protege você e você protege o sistema. Seguir o correto faz parte da educação que está arraigada no sangue do povo.
Charles De Gaule estava lá, numa estátua no meio da praça, na feira pública. Quanto termina o horário da feira vem a limpeza pública e lava a calçada. Os pombos fazem a festa. Aliás, uma ave global. Existe algum lugar aonde elas não estejam?
O jantar estava maravilhoso. Vinho, uma salada maravilhosa, massa. Nem consegui comer tudo. Quase pedi para embrulhar para levar para o “gatinho”. Fantasmas no quarto.

Florença.
Caminhamos pela cidade a noite. Nas janelas das casas pude ver nos rostos das mulheres traços das minhas tias. Parece que cada passo, cada pedra, tem sensações e cores únicas. Ninguém percebe, ou já estão tão acostumados que fazem parte da energia que os abraça. Hotel barulhento, cheio de fantasmas e camas rangendo. Foi só uma noite, inesquecível!

Veneza.
Me senti em casa, novamente! Andar em Veneza é fácil. Nem precisei de mapa. É só seguir as placas amarelas para onde você quiser ir. Antonio nos levou no passeio pelos canais na gondola que ele disse estar na família há 4 gerações. Ele tem 40 anos e faz isso desde os 9 anos. Eles são mestres nesta arte. É bonito ve-los manejar o barco como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Suiça.
Lauterbrunnen - Quando mais eu subo, mais lindo fica! As montanhas, o cenário. Até a água é melhor. Subimos até o topo e descobri que a neve me apavorou. O frio é ótimo e ofuscante. Gente caindo e escorregando. Lembranças de um acidente comigo e um esquiador, explodiram no meu peito. Saímos dali rápido e nos enfiamos em um dos túneis de puro gelo. As esculturas são incríveis. O chão escorregadio e a atmosfera macabra. Tudo fazem para explorar o turista. Nós agradecemos a criatividade! Encontrei um relógio lindo para minha afilhada: suíço, com uma corrente para pendurar no pescoço.
De volta ao hotel fizemos uma caminhada até a cachoeira, por dentro da montanha. Visitando as casas e os currais com as vacas e os carneiros, não resisti e passei a mão em um deles. São mansos, esperam comida. E as vacas tem sinos nos pescoços. Desenho animado! Hotel Schutzen com uma cama divina e cobertor japonês. Frigobar é só abrir a janela. A montanha é logo ali, depois do telhado. Capuccino delicioso no café na esquina.

Boppart.
O castelo de Loreley. A mulher que se atirou da montanha, dentro do rio Reno, para não se casar com quem não amava. Até hoje os marinheiros que passam na área tem medo de sofrer algum naufrágio. Segundo a lenda, é ela que chama os homens para dentro d’água. Enquanto passeávamos pelo Vale do Reno em um barco, vimos o castelo ao longe. Café, vinho, conversa, silêncio. Aliás, o café é ótimo. Nem coloquei açucar! http://www.youtube.com/watch?v=GboWNnxMgys
Alemanha é mais organizada, os homens são mais feios, as pessoas mais gordas e fumam mais. Não vi mulheres grávidas. As crianças pequenas são estrangeiras, na maioria.
O país é muito bonito. Ao longo da estrada vimos plantações de batatas, couve, repolho. Caminhões de batatas vão e vem. Hotel quentinho, carpetado. Internet zero. Chuveiro com hidromassagem, cama ótima. Um monte de janelas no quarto enorme. Eta vida boa!

Amsterdã.
Isso aqui é uma bagunça. Homens altos e lindos. Meio cínicos. Irônicos. Acredito que saibam da sua beleza. Afinal, auto estima é tudo! Carro, trem, bicicleta, onibus, gente, malas, carrinhos de bebês, tudo ao mesmo tempo, agora em seus tamancos! Indo e vindo. Numa confusão organizada entre buzinas, sinais de transito e guardas. Passeamos no famoso bairro vermelho. As mulheres na vitrine não são melhores nem piores do que as brasileiras que encontramos nas nossas praias. O mais interessante são as vitrines com neon azul e vermelho. A cor vermelha é para as mulheres. A cor azul identifica o travesti. Tem para todos os gostos. Na verdade, Napoleão é que pedia para seu médico examinar as mulheres que acompanhavam a tropa a fim de identificar alguma doença. Se elas estivessem “limpas” ganhavam um cartão vermelho. Adoro história! E no final das contas não provamos os famosos brownies com maconha! Os nomes todos terminam em Dam. Hotel frio, sem tapetes. Andamos muito até chegar no quarto. A vista maravilhosa para os barcos na marina.
Quando cheguei em Volendam liguei para meu pai. Perguntei para ele se adivinhava onde eu estava. Ele acertou na primeira tentativa! Tirei fotos e mostrei para ele depois. Reconheceu vários locais apesar do tempo. Ele ficou emocionado e eu também. É isso que levamos dessa vida!

Belgica.
Voltando para Londres, pela fronteira com Belgica e França. Encontramos um fiscal na alfândega no final da carreira. Gordo, careca, antipático. Toda a linguagem corporal nos dizia que a inveja e o mau humor imperava naquele ser de baixa estatura. Ignorante e arrogante. Ele pediu o e-ticket da passagem de retorno ao Brasil e eu mostrei o recibo da passagem. Não foi suficiente. Ele sequer leu o papel. Começou a complicar e depois de muito conversar e sugerir outras coisas, perguntou nossa profissão. Quando falei Petrobras ele mudou de atitude. Infame! Carimbou nosso passaporte e falou umas besteiras. Conseguimos passar. Como se nós quiséssemos ficar ali e lavar a louça dele. Longos dez minutos.

Londres.
Do hotel para o aeroporto de Heathrow foi outra odisséia. Duas horas e quarenta minutos trocando de linhas e arrastando malas. Povo educado, nos ajudando nas escadas. Ninguém liga se você tem mala grande ou pequena, se você fala inglês ou chinês. A educação é a melhor arma que alguém pode ter. Com licença, obrigado, desculpa. Abrem-se as portas da gentileza e todos somos felizes para sempre! E quando cheguei em casa descobri que meu cartão de crédito tinha sido clonado no Holiday Inn, em Londres. Isso não é muito chique???

Lugares.
De tanto ver filmes não vejo nada de novo. A impressão é como voltar para casa. Melancolia. Como é possível sentir que está matando a saudade de um lugar que nunca estive, pelos menos fisicamente, nesta vida? Cada canto, cada espaço tem um pouquinho de deslumbramento e paixão, é parte da vida. Observar minha companheira de viagem brilhar os olhos com tudo que vê como se fosse a primeira vez é interessante. Em alguns momentos percebi que estou por aqui sempre. Muitas coisas são parecidas com o Brasil. As flores, as paisagens, as árvores. Realmente o mundo era um só e se partiu em muitos e a humanidade mudou sua língua e seus costumes. Vai ver é por isso que é tão difícil aceitar o que é diferente, portanto, difícil amar, pois tudo se mistura e já não entendemos nossa própria origem.



É verdade que tudo depende do ponto de vista. Suas emoções controlam praticamente tudo, mas, educação e respeito faz parte do todo. Nivelar as pessoas pelo que somos ou fazemos nos faz sofrer. Entendo e respeito o jeito de ser dos outros mas isso não significa que aceito. É no aceitar que deixamos as emoções tomarem conta. A razão não prevelece e acabamos invadindo o território alheio. Paciência. Temos muito que aprender ainda. Talvez precisemos de um retiro longe do mundo para aprender a lidar com a falta de carinho, amor, suavidade. “Há que endurecer sem perder a suavidade.” Ele sabia. Guevara sabia quando falou isso. Ele sentia. Embora tivesse na cabeça a vontade da guerra, ele carregava no coração o olhar do amor. Lembrei da musica, “You gotta be”, da  Desiree. Ela canta – “Você tem que ser mau, destemido, sábio, duro, forte, com garra, tranquilo, equilibrado, desencanado. Pois o amor vai salvar o dia.” http://www.youtube.com/watch?v=JhpZfltbnAQ

07 junho, 2013

Mar de Rosas

Foto: FPES Lorena, Edson, Jaelson, , Elaine


Aqui estou eu, fazendo o HUET pela quinta vez. Explico que é um curso com siglas em inglês que significa algo parecido como: Treinamento para Escapar de um Helicoptero Embaixo D’água. Coisa pouca. Imagine que você vai voando para o trabalho (meu caso) e, de repente, o bicho dá uma pane e cai dentro da água. Você, muito bem treinado, com todo o próprio pânico controlado, já sabe como escapar, principalmente se o helicóptero virar de cabeça para baixo.
Isto é apenas um dos cursos básicos que nós, que trabalhamos embarcados, precisamos fazer para estarmos aptos a trabalhar na vida no mar.
Ultimamente tenho pensado – ou melhor – observado o pessoal que embarca apresentar inúmeros problemas físicos e psíquicos. Conversando com meu colegas eu escuto todo tipo de problema. A principal reclamação é manter um relacionamento saudável. Com nossas prolongadas ausências, geralmente de quatorze dias, ficamos longe da vida diária ou da rotina de nossa família, principalmente filhos e conjuges. No início o deslumbramento com a pessoa que embarca – todos acham que na “folga” não fazemos nada – parece o paraíso. Mas depois o longo período de ausência vai levando a uma angústia por parte, principalmente, de quem fica esperando, que provoca naquele que embarca, um profundo desespero. Aí começa a gerar a tristeza e, consequentemente, a depressão. Os telefonemas não param de acontecer, prejudicando o trabalho a bordo e atrapalhando a concentração. A insatisfação com o trabalho vem logo depois, fazendo com que nada seja bom. Os defeitos do ambiente no qual trabalhamos começam a sobrepujar as qualidades. De repente, não há mais relacionamento e lá vamos nós para nosso terceiro casamento e o quinto “PJ” – para quem não sabe: Pensão Judicial.
E na fila da terapia se encontram os filhos que já são meio-irmãos, com dois pais, quatro mães, oito avós e um monte de outros parentes, deixando todos sem referência e fazendo o inferno em uma sala de aula.
E também temos a fila das doenças que só cresce. Surtos, TOCs, ataques de pânico repentinos. Aquela doença de pele que faz os cabelos caírem junto com as sombrancelhas. Horror! A psoríase que deixa seu corpo explodindo de ansiedade dizendo para você: seu mundo interior não te quer mais no mundo exterior!
Trabalhar em um ambiente confinado faz com que senso de liberdade entre em desespero e isso só vamos perceber mais tarde na taquicardia inesperada, nas insônias, hipertensão, diarréias, mau humor, pessimismo e ansiedade.
Numa conversa com um dentista fiquei estarrecida quando ele me disse que todas as pessoas que trabalham embarcadas, as quais ele trata, tem bruxismo. Incrível! Imagine uma tripulação de trabalhadores rangendo os dentes, mastigando-se, lutando com seus monstros enquanto dormem! Que sinfonia!
Por isso que fazer cursos na nossa folga é tão irritante. É como se invadissem nossa paz novamente. Nos trouxesse de volta ao trabalho que apenas queremos “apagar” por uns dias. E o que me levou a escrever sobre isso foi meu apagão. Falta de memória! Simplesmente esqueci que o curso de HUET estava marcado, e sem ele eu não posso embarcar.
Me lembrei que vários colegas já comentaram sobre isso. Esquecimento. E eu que me gabo de não usar agenda. Nunca usei porque gosto de exercitar minha memória e assim tenho tudo gravado. Horários, locais, pessoas. Será que além das lesões físico-básicas que adquirimos ainda temos que incluir a falta de memória no CV de doenças offshore?
Já perdi dez por cento da capacidade auditiva do ouvido esquerdo e engordei montes de quilos; consegui lesões na coluna e varizes. Não vou citar aqui os pormenores sórdidos da minha vida amorosa porque meus amigos já sabem como é... ou não é! Sem contar que o maior índice de disfunções sexuais se encontram nos homens que embarcam. Usem a imaginação... Por que será?
Marcar consultas é outra dor de cabeça. Além de existir uma data velada de agendamentos para o plano de saúde você precisa ligar “do dia tal ao qual”. Se eu estiver embarcada nesses dias nem adianta insistir. Aí entra minha mãe e sua gentileza ao telefone. Mas, e para quem não tem “mãe”? Sabemos que comunicações a bordo são difíceis e temos que contar com a boa vontade daqueles que retém o poder dos telefones.
Nossa vida social é feita de datas perdidas. Casamentos, aniversários, carnaval, ano novo, natal. Feriados prolongados onde você se desencontra de todos! E quando tenta organizar sua rota para ser o padrinho na formatura do seu melhor amigo, tem que depender da boa vontade do seu “back”. Mais stress!
E um grande perigo que poucos tem consciência é o círculo vicioso do dinheiro fácil: a atraente Dobra! Ela te dá muito dinheiro mas leva sua sanidade. Vender as férias pode ajudar a comprar o carro e terminar a obra mas cobra seu precioso tempo, o de não estar com aqueles que lhe são caros. Cuidado! O vicio do dinheiro traz ganância e adoece o espírito. Voltamos daí, à estaca zero. Como disse um grande sábio:  “Para que eu preciso de três pares de sapatos se só tenho dois pés?”  O carro na garagem, a família dentro de casa, confortavelmente me esperando... E eu embarcado!
Claro que também temos motivos positivos para levar essa vida trabalhista neste ambiente aquoso. Caso contrário, não estaríamos aqui, mas, só para constar, para aqueles que acham que nossa vida é maravilhosa; que trabalhamos só metade do ano; que não fazemos nada na nossa folga e ainda reclamamos, gostaria que lembrassem que temos família, sentimentos e um corpo físico que se deteriora como os outros. Sem contar que o desgaste psicológico é intenso. E ainda temos que ouvir gracinhas como “Pião é a imagem do cão”. Onde está o respeito pela essência divina que reside em todo ser humano?
Se isso não for suficiente, para estimular a solidariedade, venham trabalhar aqui e sentir o perigo de perto. Saber que literalmente estamos todos no mesmo barco e precisamos uns dos outros em cima desta bomba... Mesmo!
Me lembrei de uma música do Titãs, Comida, que pergunta: Você tem fome de quê? A maioria diria liberdade ou independência. Independência é utopia. Liberdade é sonho. Minha fome é de respostas para perguntas que nem sei se são relevantes ou se farão diferença quando forem respondidas. A fome verdadeira é de respeito. Respeito pelo trabalho que fazemos e pelo amor que sentimos.
De longe o mar é lindo e misterioso. De perto ele é solitário e cruel.

29 janeiro, 2013

Infinitos Cinquenta Tons de Vida



Não pense que vou escrever sobre o livro mais famoso do momento, desculpe decepcionar vocês. Esse cinquenta tons é apenas uma alusão aos cinquenta anos já completos de uma amiga-irmã, aos cinquenta anos de outra amiga-irmã que está chegando e os meus cinquenta! Ah, sim, tecnicamente sou a mais nova das tres. Isto só me faz rir. Quando na verdade, por tudo que vivemos, a idade cronologica não é a espiritual, nem mesmo a psicológica. É que, dependendo do momento, somos agraciadas com nossas cinquenta caras, nossas cinquenta escolhas, nossos cinquenta sentimentos diluídos em cinquenta emoções. E não são cinzas. Embora o cinza, o branco e o preto estejam presentes, a maior parte do tempo é amarelo... Ouro! Da energia que compartilhamos, das risadas que trocamos, das lágrimas que testemunhamos. Isso faz bem mais de cinquenta. Só nós tres juntas formamos cento e cinquenta. E com nossa irmandade, que sentimos vem bem antes dessa vida, é simplesmente impossível determinar um número, imagine então, uma cor.
Antigamente chegar aos cinquenta era uma marca da velhice. Cabelos brancos; rugas; andar lento, curvado; cansaço; voz baixa, desgastada; um sorrisinho no canto da boca ou as vezes um olhar duro, amargo, sem nenhum vestígio de felicidade. Esse era o tom da velhice dos cinquenta. Hoje a juventude e a maturidade se confundem nos vários tons de cabelo, nas várias artimanhas da dermatologia para mascarar as rugas. É preciso ter cuidado para não cometer uma gafe ou ofender alguém quando mencionar seu tempo. As pessoas estão preocupadas com a aparência e deixam de lado o coração, literalmente.
Enquanto os enfartos aumentam a indústria da maquiagem fica milionária. O grande perigo é darmos mais valor ao supérfluo e não nos atermos aos valores humanos. Amizades, relacionamentos, férias, livros, café com pão de queijo, uma tarde de filmes com os sobrinhos, viagens, uma boa conversa, risadas à vontade à beira mar, tapioca, um bom camarão ao molho de mostarda com mel. Ah, como é bom chegar aos cinquenta. Como é bom acordar todos os dias e agradecer ao sol, ao ar que respiramos, aos familiares que estão vivos e também aos antepassados que nos proporcionaram chegar ao ponto que estamos.
Devemos agradecer aos privilégios que nos são dados todos os dias. Mesmo doentes, mau humoradas; mesmo que aquela dor lombar persista e eu precise ir ao dentista, vou olhar tudo pelo lado bom. Tenho condições de ir ao médico e comprar meus “remedinhos”. Tenho um corpo suficientemente perfeito para me dar liberdade de ir e vir. Tenho dentes! Ah, dentes! Você já percebeu como os dentes são importantes? Quer coisa mais cativante do que poder sorrir, com o bocão aberto, mostrando todos os tons de branco numa risada poderosa e revitalizadora?
Está mais que na hora de entender que estamos apenas na primeira fase dos cinquenta anos. Depois de pintar nossa vida com tantos tons, a palheta de cores nem começou a ser usada ainda. Já choramos, já sorrimos. Enfrentamos mortes e nascimentos. Batizamos, oramos, compartilhamos o pão, o café, o arroz. Mentimos, fomos verdadeiras. Calamos, dissimulamos. Promovemos a paz e enfiamos o garfo da guerra em alguns corações. E continuamos pintando...
A única certeza que tenho é que deixaremos nosso corpo neste plano em algum momento. Quando, não sei. Não me lembro os termos do contrato que assinei. Enquanto isso aumentarei minhas orações. Agradecerei mais. Serei mais verdadeira. Calarei se tiver que magoar. Guardarei o garfo da vingança e a faca do rancor. Jogarei fora minhas amarguras e vestirei cores mais alegres. Ainda vou tentar colocar na parede do meu quarto uma enorme fotografia de nós três juntas: Penélope Charmosa, Betty Boop e Branca de Neve.
E, acima de tudo, viverei intensamente todos os tons da minha vida, agradecida por ter belas amigas. Minhas irmãs: nossos cinquenta tons de vida realmente são infinitos. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Obrigada por me emprestarem suas nuances, juntamente com seus pincéis, me ajudando a colorir a minha vida. Independente da foto na parede, tenho um amor infinito por vocês no coração. Thamar e Rosemary (em ordem cronológica!)

23 abril, 2012

Amizade



Há algum tempo atrás, fiquei feliz pela possibilidade de fazer um novo amigo. Ledo engano. Acabou tornando-se meu ex vulgo amigo. Você deve estar pensando: afinal, ex amigo, ou vulgo amigo? Vou tentar explicar. Imagine que você pensa que tem um amigo e de repente, esse amigo não existe mais! A amizade ficou no passado e, portanto, não era amizade, era uma “vulga amizade”. Pior que a culpa foi minha. Eu estraguei tudo. Eu o magoei. Falei o que ele não queria ouvir, e o afastei com minha ferina verdade. Fui insensível e não respeitei os sentimentos, o tempo, a fase que ele estava passando. Talvez na ânsia de tentar ajudar eu estraguei tudo.
Mas fico pensando que na vida real existem vários tipos de amigos-colegas. Aqueles que riem contigo; que contam segredos; que apenas falam; que só escutam; que te emprestam dinheiro; que te dão carona; que te ligam no meio da noite; que não te ligam nunca, mas sabem seu número de cor; que “sentem” sua desgraça e veem correndo e aqueles que só te abraçam e não precisam dizer mais nada.
Sim, são muitos amigos, colegas, pessoas presentes no trabalho, na escola, em casa, na vida. E aqueles que foram criados contigo e que não se perdem nunca!
Cada amigo precisa de um tipo de alimentação diferente e dependendo do seu horóscopo do dia você acaba “molhando demais a planta” e encharcando a raiz, matando de vez a amizade. Pois é, afinal, como deve se comportar um amigo? Ser sincero, omisso, fiel, alegre, dar tapinhas nas costas, fingir que não vê, fazer de conta que está triste também só pra consolar, ser duro, sensível, irônico? Não sei! Talvez tudo isso faça parte do todo mas do meu ponto de vista, para se manter uma amizade tem que haver confiança e esta só vai ser adquirida com respeito e verdade. Fui verdadeira demais. Achei que estava segura em nossa recíprocra confiança e fui mal interpretada. E pior, fui afastada e portanto, não perdoada.
Não vamos nunca encontrar a fórmula mágica ou o manual onde os relacionamentos possam ser estudados e aplicados a este ou aquele caso. Enquanto falarmos sobre seres humanos andaremos sobre uma corda bamba, sem rede embaixo para salvar nossa queda. Afinal, que tipo de amigo eu quero: aquele que vai contra minhas loucuras ou aquele que é conivente com minhas demências?
O mais interessante é que quando falamos a verdade, quando expressamos nossos sentimentos, abrimos nosso coração, esperamos uma boa reação. Mas sempre acontece ao contrário. Vai ver que é por isso que aprendemos a mentir desde crianças. Não nos é ensinado a valorizar a verdade. Nos sentimos seguros atrás da mentira. E assim proceguimos na nossa vida adulta e acabamos por nos transformar em grandes covardes.
Se eu mentir, você vai me amar para sempre porque vou compactuar com seus sentimentos, com seus atos, com suas escolhas. E assim, você vai se sentir seguro e feliz sem o compromisso da responsabilidade. Simples!
Por isso, quanto mais velha fico, vou atando ainda mais os laços antigos que me dão segurança e que sei, são verdadeiros. De qualquer forma, tudo que fiz veio do meu coração, com a intenção de ajudar. Tudo bem, como dizem, o inferno está cheio de boas intenções. Que bom, quem sabe o inferno não é tão mau assim. Se as ações infernais forem feitas com amor, o diabo provavelmente deve estar tentando se mudar.

22 abril, 2012

Insônia



Depois de muito rolar na cama, ler, fazer alongamento, cantar, ouvir música, mexer no celular e montar uma lista de preferências... resolvi escrever. Faz tempo. Vai ver por isso não consigo dormir. Tenho que colocar para fora essa explosão de pensamentos, essa mente que parece querer lançar lava para todos os lados.
Deixe estar – são momentos como esses que provocam o nascimento de coisas fantásticas. Um famoso ator/diretor/roteirista brasileiro conseguiu canalizar toda sua criatividade em sucesso por causa da insônia e tem gente que se queixa disso. Se formos computar todos os insones famosos perceberemos que tudo é benção. Já pensou que talvez o corpo não queira dormir porque tem algo mais a fazer? Então descubra. Não lute. Inútil! Deixe fluir a energia do contra-sono e relaxe - de forma contrária à ansiedade. Não fique pensando que as horas não dormidas vão te deixar cansado, pelo contrário. Cansado ficamos por querer dormir e lutar contra os pensamentos. Levante-se, vá ver um filme ou simplesmente se escute e veja o que seu corpo-mente-espirito está pedindo. E faça! Você sente fome porque o estomago está vazio, e aí come! E assim são os pedidos do seu corpo.
São inúmeras as sedes, incontadas fomes! Fome de alegria, de amor, de contato, de notícias, de prazer; sede de sair, de mudar, de matar, de desaparecer, de liberdade. Insônia é seu corpo contra atacando e se vingando – só um pouquinho – porque agora ele quer o momento dele, e tem que ser acordado!
Aproveite e se escute, sem preocupações com o relógio-amanhã. Aliás, o que me lebra um livro que li – que recomendo, ali ao lado na lista dos nossos livros,  da T. Bertherat – “Há quem fuja do presente projetando-se para o futuro, o que provoca a ansiedade – que nada mais é do que a distância entre o agora e o depois.”
Nossa sede por realizações futuras nos deixam tão distantes do presente que nos causa doenças.
Chega de ansiedade. Não quero me partir em pedaços e deixá-los no passado ou atirá-los no futuro. Quero tudo agora, inteiro. Vamos reformular a frase – eu sofro de insônia, por - eu curto insônia! Vamos pensar que a falta de sono é um presente do que o teu corpo te dá para que viva mais um pouquinho, aqui, acordado.
Aqui estou, embarcada, ouvindo música, escrevendo e pensando em pegar um capuccino. Tem coisa melhor? Com certeza, cada um que sabe a sua “coisa melhor”. Posso dormir depois e deixar os sonhos me levarem, mas agora vou eu mesma pegar meus sonhos com as mãos e me deixar navegar... acordada!

23 dezembro, 2011

Bodas de Ouro


Meus pais fazem 50 anos de casados hoje. Bodas de ouro! Embora o casamento seja deles eu me sinto também comemorando 50 anos de vida boa, numa família forte, cheia de altos e baixos mas firme no propósito de evoluir e agregar valores.
Pois foi isso que aprendi, que consegui adquirir e tento passar para as pessoas que estão a minha volta. Honestidade, integridade e lealdade. Por mais que nosso caminho fosse feito de espinhos, era só olhar mais um pouquinho para cima e veríamos as rosas.
Pai firme, sincero, protetor feroz e autêntico. Mãe dedicada, flexível, espiritualizada e extremamente inteligente. Esses ingredientes nos fizeram pacientes, críticos e sonhadores. E misturando nós 5 conseguimos chegar até aqui com uma base sólida onde a referência da família é indestrutível.
E de dois partiram três que transformaram-se em oito e agregaram mais um monte incontável. Família é isso: um juntamento infinito de possibilidades e universos pararelos cheios de mistérios. Não falta bom humor e boa fofoca. Também não falta vontade de querer mais e preguiça com café.
Sim, sempre tem café. Sempre tem chocolate e jornal com uma exagerada conversa sobre política. Sempre tem receitas e comida de qualquer tipo. Geladeira gorda. Melancia. Televisão ligada. Música e gargalhada. Conversa em cima da cama, ao redor da mesa depois do almoço. Doce de banana. Máquina de lavar fazendo barulho; telefone tocando.
Obrigada aos meus avós que pariram meus pais, que formaram uma família que me mantém sã. Obrigada aos meus irmãos que guardam minhas lembranças como desenho animados. Obrigada as minhas cunhadas que permitiram trazer a esse mundo sobrinhos tão únicos, tão amados. Obrigada as minhas tias e tios, aos meus primos e todos aqueles, consanguíneos ou não, que fazem parte deste conglomerado eterno que é minha família.
E domingo tem bolo da titia – das titias!
Família é realmente de ouro. Belíssima simbologia neste metal valioso, iluminado e tão cobiçado. Porque realmente para conquistá-lo é preciso muito esforço psicológico, vontade de ferro, conivência, cumplicidade. É preciso ceder, aprender a entender e amar.
Só sinto-me triste quando vejo que hoje em dia as famílias perderam a referência de estabilidade. Talvez o mundo esteja caminhando para uma nova evolução familiar, sei lá.
A única coisa que posso dizer, porque sinto todo dia, é que prefiro ainda a família antiga que vivenciei quando pequena – uma mesa grande, com meu avô sentado à cabeceira, e muita conversa e risada pararela na hora do almoço. Essa lembrança rara foi o maior presente que tive.
E esse presente continua sendo aberto todos os dias, no ouro da aliança entre meu pai e minha mãe.

17 setembro, 2011

Expectativas


Interessante como nos decepcionamos com as negativas ou as positivas inversas ao que esperávamos. Complicado? Nem tanto, se pensarmos na quantidade de decepções e encontros desmarcados ou no planejamento infinito que não se concretiza sempre adiando ou esperando que o outro faça acontecer para ser realizado.
Vixi! Agora compliquei de vez! Pergunto-me, por que fico triste depois de ficar alegre? Talvez porque exista ainda em mim aquela pitada de ingenuidade que todos condenam (Sim, porque ser ingênua é sempre ponto negativo!).
Na maioria das vezes dosamos nossa vontade por causa de alguém. Limitamos o tamanho dos nossos passos sempre pensando no julgamento alheio. Se vamos sair para dançar, nunca sem acompanhante; se vamos sair para jantar, nunca sem um par; se vamos ao cinema, imagina, sozinha? Acho graça nesta hora porque penso nos meus sobrinhos... sim, novamente, lá vão eles comigo – ou eu com eles – e acabo na fila dos Smurfs!
Melhor parar com isso! Mas como? Se tudo que aprendemos tem a ver com “o outro”. Desde o início nos ensinam que Deus criou a mulher da costela do homem para que não vivessem sós no paraíso.  Que raio de paraíso é esse que me tolhe, me faz ser condescendente, me ensina que a independência feminina tem um quê de marginalização?
De qualquer forma é melhor começar a contar só comigo para não me decepcionar mais. Ou quem sabe não esperar demais. É isso! Estamos sempre esperando que o outro estabeleça o parâmetro para o que temos que fazer e daí termos prazer.
Isto é perigoso e frustrante. Não serve para quem já passou da adolescência e descobriu que o romantismo está apenas nos filmes e nos romances das Julias e Sabrinas.
Quando ficar alegre por ter que esperar, cuidado: tenha sempre o plano B (ou o Z) pronto. Assim, quando ligarem para desmarcar ou dar uma desculpa esfarrapada (sorte sua pois na maioria das vezes isso nem acontece!) não fique triste. Entenda que as pessoas – homens e mulheres – têm seus momentos, seus altos e baixos, suas seqüelas. E você não é responsável, nem culpada, pelas atitudes alheias. Jamais atrele sua felicidade a alguém que nem mesmo sabe quem é ou a que veio.
Expectativas são suas, criadas na sua mente, crias da sua vontade. Quando entender isto, não terá mais a sensação de tristeza por não ter realizado o que dependia do outro ser. Simplesmente o momento passará e ficará a sensação de que o azar é só dele (ou dela!).
Se nosso coração é livre e tem o poder de ir e vir com responsabilidade, satisfação vira mera informação. Porque se o paraíso significa manter minhas asas dobradas enquanto alguém é responsável pelo vento para que eu possa alçar voo, então, prefiro o inferno!

10 setembro, 2011

Vínculos



Hoje é o casamento do meu primo. Uma relação muito atual, com filhos “seus e meus”, com todos os temperos e um Menu muito próprio, para tudo dar certo. Aí me lembrei de uma conversa sobre relacionamentos que tive com uma amiga, há três anos.
Interessante como os casais se separam fácil hoje em dia, mas a verdade é difícil se separar; é horrível, dói muito, ficamos tristes, afinal, ninguém quer terminar um relacionamento! Temos sempre aquela intenção de sermos um casal eterno; a imagem do envelhecer ao lado daquele alguém com quem nos casamos. Quando me separei, lembro muito bem o que todas as pessoas me diziam. Uma frase, porém me deu muito alento, quando minha tia, depois de ouvir minhas lamentações disse: “Ninguém casa para se separar!”
Com o tempo a dor vai indo embora e percebemos que tudo acontece para o nosso bem.
Depois sempre encontramos alguém que nos diz que podemos ser felizes novamente. E lá no fundo, nós sabemos que podemos. Mas sempre precisamos ouvir isso de outra pessoa, por que será? Auto-estima em baixa? Amor próprio deprimido? Não importa, queremos que ele diga “posso te fazer feliz!”
Somos todos grandes solitários nessa vida internética. Sabe, acredito que a humanidade está sofrendo de solidão coletiva. A maior parte das depressões é devido à falta de um relacionamento estável. Essa história de globalização, ficar, relacionamentos abertos, está deixando as pessoas sem raiz. Isso traz insegurança, afeta toda a psique do indivíduo e leva ao suicídio. Quando falo em suicídio, quero dizer que não precisa dar um tiro na cabeça ou beber veneno para se matar. Basta desistir de viver, ou as vezes se jogar de cabeça em um coquetel de frutas com rum.
As famílias estão sendo transformadas, os relacionamentos duram pouco e tudo em nome de um sexo fácil e emoções "rasas" - ninguém quer se aprofundar em nada e acabamos no fim da noite em casa sozinhos ou, acordamos somente com a cama enorme sem um bom dia, sem um rosto amigo ao lado.
O sentimento do medo nos invade; medo de apaixonar, de amar, de se entregar. Isto promove desconfiança e acabamos deixando de lado a autenticidade e nos embolamos nos outros e esquecemos o que queremos de verdade. Muitas vezes aquele que encontramos é bom, mas não acreditamos, e ele também não, achando que somos todas iguais! Tudo por uma questão de insegurança, de um inconsciente coletivo que nos diz que nada vai dar certo! Mesmo porque se não der é só separar. Essa é a grande pegada do momento. Nem precisamos mais tentar!
No fundo só queremos ser felizes. Fazer o outro feliz. E podemos! Podemos ser ótimas companhias um para outro. Isto nos faz bem! Podemos até achar que isso é impossível, que não existe.
Mas no fundo sabemos que é tudo uma questão de confiança, segurança, deixar o coração nos guiar. Minha amiga Fa disse que precisamos pensar nossa vida com metas. Na maioria das vezes só conseguimos atrelar nossas metas a alguém, porque no fundo, necessitamos de um vínculo. Não dá para ser feliz sem ele. Seja ele de que jeito for com quem quer que nos ame ou que amemos.
Vínculos - É assim que somos feitos, de sentimentos que nos unem às pessoas... fácil?! Depende da qualidade do amor e da sua capacidade de entendê-lo.

16 agosto, 2011

Sobre a Vida


Pandora me escreveu e me perguntou por que falo tanto sobre a morte. É uma longa história...
Vi um filme uma vez, em uma das cenas, uma menina pintava um quadro enquanto uma linda moça a ensinava sobre os tons. Com o olhar crítico, agudo para sua jovem idade, ela disse à menina: “Cuidado com as sombras! São elas que vão intensificar a luz!”
Da mesma forma eu penso – como poderemos valorizar a vida se não pela morte?
No simples ato de respirar, inconsciente, estamos ligados a tudo. Ao sol que nos aquece, ao vento que nos traz aromas, nas flores que encantam nossa retina, nos sons que inundam nossos sentidos... Notas musicais o tempo todo!
Assim é a música da vida. E dançamos conforme vamos compondo na partitura do destino com nossas escolhas.
Vamos cantando, encantando e desencantando os outros. Da mesma forma somos suscetíveis as nuances da paixão e do amor, cicatrizamos o coração, e preenchemos nossa história com belas e feras.
Não precisamos falar sobre a vida. Melhor senti-la. Melhor vivê-la sem medo. Mesmo assim queremos saber nas runas, no tarô, nos búzios, como vai ser a vida!
A vida é verdadeiramente bela! Nós que às vezes não conseguimos ver a beleza, sentir os tons, pintar as sombras e fazer acender a luz! Ficamos agarrados à sensação de fim, sem vontade, sem perspectiva, ligados no automático.
Mesmo assim a vida continua fluindo através de um inesgotável derrame de energia levando-nos a girar por um caleidoscópio tão sutil que só percebemos que estamos dentro dele quando explodimos em lágrimas ou em risos.
Aí a vida é consumada e sentida novamente.
Na palma da mão quando sentimos a pele de quem amamos; na sola do pé quando sentimos a areia molhada da praia; no prazer do alimento com os amigos; no cheiro do travesseiro quando cansados...
A vida além de bela é simples. Como o riso de uma criança, como o movimento da água no rio. Como uma semente que brota e transforma-se em flor.
A vida é uma verdadeira caixinha de surpresas, cada dia você pode abri-la e tirar de dentro o que quiser.
Pandora estava certa quando abriu a caixa que continha todos os males. A caixa está dentro de nós e abri-la para revelar o que tem dentro é realmente assustador. 
Revelar o conteúdo desta caixa para o mundo faz com que todos os minutos que vivemos sejam transformações, verdadeiramente.
Ou seremos nós que estamos dentro da caixa?
Mas o equilíbrio cósmico não nos deixa sem prumo. Não temos como fugir dele.
Na tela em branco, se não houver o sutil traço para declarar a sombra, como aparecerá a luz?
Afinal, como saberei se a estrada do céu é a melhor se não caminhar pelo inferno?

Curiosos