Navegando...

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Trabalhamos embarcadas, offshore, dentro d’água, como queiram. As palavras para explicar essa maneira de ganhar a vida, ou ganhar o sagrado dinheiro para viver a vida, tem muitos nomes. Mas, o importante é o que se ganha na convivência. Neste mundo muito diferente, temos o privilégio da intimidade quando descobrimos a beleza no interior dos seres mais incríveis. Verdadeiros presentes em palavras pois é o que podemos aqui compartilhar. Pérolas que não vão adornar o corpo mas com certeza vão fazer crescer o valor da alma de cada uma de nós. Se nem tudo que se mostra é belo, não importa. Se percebermos o equilíbrio, vai ficar tudo bem!

06 dezembro, 2013

Diario de Viagem - JAPÃO - Primeira Parte


De 02 à 28 de outubro de 2000 eu e mais quatro brasileiras tivemos a oportunidade de visitar o Distrito de Canagava e conhecer dez cidades. Narita (Chegada - Aeroporto em Tokyo), Fijisawa, Hiratsuka, Isehara (Tokyo), Odawara, Yugawara, Sagamihara, Ebina, Yokosuka, Kamakura, Narita (de volta pra casa). Aqui um pouquinho das minhas impressões.
  
Dois de outubro
Saindo do aeroporto Salgado Filho às 5h30 em Porto Alegre. O pessoal foi chegando, Kipper, Carla, Mari, Ihoko e eu. Abraços e beijos, e meu pai implica com meu cabelo – ele parece mais nervoso que eu!

Chegamos em Los Angeles. Estamos contra o tempo, engraçado isso. Quem disse que não podemos viajar no tempo? Esperando, num lugar bonito e cheio de gente feia. Todos vão para todos os lugares. Temos que esperar por mais ou menos uma hora. Estou com sede e não tem café por aqui. Como se pode viver sem café? O pessoal queria beber chimarrão, mas a cuia ficou em uma das malas. Acredito que isso também não seria possível, afinal, tudo pode virar ataque terrorista neste país. Imagine, uma cuia de chimarrão, bomba e erva! Um verdadeiro molotof!!!


Três de outubro
Chegada em Narita. A passagem na imigração foi rápida. Carimbaram e olharam os passaportes. Não revistaram nossas malas. Elas devem ser verificadas antes por um raio-X poderoso, com certeza. Quem em sã consciência iria deixar estrangeiros entrarem no país sem verificar possíveis terroristas? Esse pensamento também é terrorista.
Assim que colocamos os pés no aeroporto o cheio de molho shoio inunda as narinas. Incrível! As malas da Carla e a minha não apareciam nunca. A recepção pelos rotarianos foi engraçada. Todos distribuindo cartões pessoais.

Fui apresentada a nossa intérprete, Mariko Yamaguchi. Eu olhei para ela com os olhos arregalados e, se ela percebeu alguma coisa não falou nada. Na janta, mais tarde, contei para todos sobre o meu gato preto angorá que se chama Yamaguchi. Mostrei a foto dele e foi um Óh! Geral! Se foi positivo ou negativo, melhor deixar pra lá!

Quatro de outubro
No primeiro hotel o quarto é bem simples mas tem de tudo. Frigobar, televisão, rádio, despertador, telefone, abajur e um colchão maravilhoso, uns quadros esquisitos na parede. Arte, ou o que seja! Também, depois de uma viagem contra o tempo de 32 horas, qualquer colchão é maravilhoso. A banheira é enorme com chuveirinho. Eu, muito esperta, prendi o chuveiro na parede e virou chuveiro de verdade. Eu e Mari fofocamos até às 1h40 da manhã, mas que na verdade é 1h40 da tarde no Brazil. Já estou com saudade de casa. Tudo aqui é diferente, mas é tão igual.
No primeiro jantar com os japoneses, Yoko e Carla pediram curry; Mari e eu pedimos sanduiche de carne (veio crua). O prato da Carla estava muito apimentado. Foi difícil. Eles  gostaram quando experimentamos o saquê de arroz. Aqui o gosto é diferente. Parece vinho. 

Cinco de outubro
Passeamos de manhã e tiramos fotos. O café foi fantástico. Ovos pochê com galinha e salsichas feitas de maneira que ninguém acredita. Eu escrevi o hino do Brasil e nós treinamos. As gurias fizeram chimarrão enquanto organizávamos o dia.
Eles ficaram impressionados com o tamanho das nossas malas. O pior é que elas estão pesadas de tanto papel. A Mari tá com uma alergia de alguma coisa que ela comeu, claro! Eu to bem até agora. Quando fizeram nossa festa de boas vindas eles nos desejaram “boa saúde” até o final da nossa estada. Será por quê? Deve ser porque eles nos entopem de comida o tempo todo! É doce, salgado, café, água, o tempo todo. Eles são ótimos. Alguns meio tarados. Também, 4 mulheres em um grupo completamente diferente, chama a atenção até dos santos!
Eu tento falar esta língua malvada, mas é complicada. A minha primeira anfitriã é maravilhosa. Ela tenta falar inglês, mas sai meio quebrado. Quando eu repito o que ela diz ela fica impressionada e diz que tenho ótima pronúncia. Quando perguntei sobre sua religião e ela disse Seicho-no-iê e eu disse que conhecia, ela ficou emocionada. As pessoas se emocionam com tudo por aqui. Eles dizem Ides-né! Ides-ka! Seria algo tipo “É mesmo?” “Caramba!” Falamos sobre o Cristo Redentor e eu expliquei o que significava. É uma viagem fantástica.
Eu tenho a impressão que as coisas aqui são bem novas, como se estivessem me esperando. Ou talvez seja assim mesmo que eles vivam. Hoje na reunião de preparação eles nos colocaram as regras sobre “gastos” – eles têm dinheiro mas é tudo muito caro. A minha anfitriã me deixou usar a internet para mandar um e-mail e me disse que no mês passado ela gastou 10 horas e pagou trinta e cinco dólares.
Eles tem um cachorro. Faruko. Me adorou! O dono dele tá com ciume. 

CERIMÔNIA DO CHÁ
O treco tem cheiro de capim de vaca ruminado misturado com aquele cheiro de curral e a mulher disse que pagou muito caro por ele. Vai ver quanto mais cheiro de xixi de vaca, mais caro. O chá é feito um de cada vez nas cumbucas. Levado por outra pessoa, você recebe, faz a reverência, pega com uma mão dá duas voltas na cumbuca depois de colocar sobre a cabeça – pode beber!

Conhecemos uma figura interessante hoje, uma koreana que é uma vergonha. A maquiagem que ela usa me lembra os artista que dançam no Kabuki. Horrendo!

Eles estão nos comparando com os americanos que os visitaram no mês passado. Perguntam-nos o tempo todo se estamos cansadas. Eles disseram que os americanos quase morreram com tantos compromissos. Estão impressionados com nosso pique!

Seis de outubro
Visitamos um parque hoje e tiramos fotos. Batemos sinos para casar, para saúde. Subimos numa torre e caminhamos entre lindos jardins. É uma ilha, esqueci o nome. Não sou muito boa com nomes. Aprendi que háchi é pauzinho e hachí é ponte.
Visitamos o prefeito e ganhamos bonecas e alguns papéis. Fomos levadas a sala de reunião dos vereadores e eles nos explicaram como funciona o trabalho aqui. Os vereadores são pagos para trabalhar e trabalham de verdade. Ganham 6 mil dólares e tem que largar o emprego para fazer só isso. Eles discursam mas o texto é pré escrito e eles não podem sair fora da linha. Imaginem esse tipo de política no Brasil!

Entrevista com professor de Educação Física - Ele trabalha numa escola primária e dá aula de ginástica, natação, baseball, basquete e vôlei. Ele trabalha mais ou menos 40 horas e ganha 4mil e 500 dólares por mês. Ridículo se comparado ao meu salário. Eles deram risada quando contei quanto eu ganhava (900 reais por mês, 40 horas por semana). Humilhante! As aulas vão das 8h30 às 5 da tarde. A escola é linda, organizada, limpa e ninguém pode entrar de sapato lá dentro. Melhor não comentar sobre o Brasil! "Amigos da escola"!

Depois foi a entrevista da Carla com um agricultor. O que mais me chamou atenção é que eles não vão para faculdade. Eles se especializam através de cursos de plantação, agronomia ou agricultura.

No final do dia, Harada-san me trouxe até a casa da “Tchuco” e me deu uns hachis lindos! Ele é fabricante de hachi. O inglês dele é sofrível, mas nós nos entendemos muito bem. Ele é super simpático. Tem uma energia muito boa. É cuidadoso e atencioso comigo. Eu disse que os japoneses são muito inteligentes porque conseguem ler dois alfabetos e ele me mostrou 3 alfabetos em japonês. Antes ele me levou ao ginásio municipal para ver a biblioteca, sala de ginástica com tudo possível.
Um mestre de Kyudô fez uma apresentação exclusiva para mim. Fiquei impressionada!
Ele entra na sala, cumprimenta o alvo, nos cumprimenta. Caminha até o meio, se ajoelha com o arco e duas flechas. O arco é enorme, dá 2 dele. Ele levanta, gira para o lado esquerdo voltado para o alvo, se ajoelha, coloca o arco na frente com a aste virada para a mão direita. Pega o fio e gira o arco. Coloca a flecha. Primeiro e ajeita a ponta, segura nos dedos. Depois ajeita a parte de trás da flecha. Coloca a outra flecha virada ao contrário. Levanta. Segura o arco com os braços semi estendidos, deixa a 2ª flecha na mão, estica a haste e depois o fio. Ele segura a flecha bem longe do corpo e tenta mirar o alvo. Depois de lançar a 1ª ele repete o ritual com a 2ª. Ele atirou 4 vezes e não acertou. Ficou furioso. Eu não tive tempo de agradecer. Quando as coisas não saem com o planejado, eles são bem mal educados. 

Eu ando tensa a maior parte do tempo. Existe uma espécie de formalidade no ar o tempo todo. Ficamos com medo de fazer algo errado e... somos observadas e fotografadas. Temos que ter cuidado com as poses inusitadas!

Fomos a um restaurante italiano. Eu crente que ia comer macarrão e o diabo veio com peixe. O pior é que eu achei que ia comer carne com massa e o tal do intérprete convidado me pede quase meia galinha que eu tive que comer com pele e tudo. A gente passa por cada uma! Se os italianos soubessem o que o japonês está fazendo com a maior invenção do mundo, depois da roda, eles anunciariam a próxima guerra mundial!

Koyo-san tomou uma garrafa de vinho e começou a me olhar de jeito estranho. Me levou pro karaokê e me fez cantar garota de Ipanema e My Way. Eu tentei me esquivar e deu certo. O outro também tentou dar uma chegadinha. Mas acredito que minha cara de poucos amigos freou as investidas. Hoje eu tive medo de dormir sozinha. Tomara que as meninas estejam bem. Amanhã tem café da manhã especial. Adivinha? Comida japonesa!









Sete de outubro
Ai! Que desastre! Jantar num restaurante japonês. Apresentaram-me o sushi. A mesa muito linda, com os pratos dispostos em uma ordem única. Em três fileiras, primeiro vem, da esquerda para a direita, peixe frito (tempura) ovo batido (uchi) macarrão (udom). Na segunda fileira, no centro, o molho depois o peixe cozido (sunomonô) e mais um molho (suma). Na terceira fileira o peixe cru (tirachidish sushi), mais molho, e mais tempero (iacumi). Come-se com hachi. São mais ou menos 20 tipos de suchi. Missochiru é a sopa – maravilhosa! Mói o grão e deixa dormir para fazer a sopa. Não podemos esquecer que suchis são caros. Os mais baratos depende do peixe. A maioria das receitas é elhor nem perguntar como se faz! Fizeram-me comer tudo. Afinal, temos que experimentar. Nunca se sabe quando vou voltar ao Japão novamente.

Hoje fomos passear de helicóptero e almoçamos na base aérea uma batata assada com um filé maravilhoso. Depois fomos à universidade de veterinária, agronomia e biociências. Vimos vacas e tecnologia. O cheiro é terrível. Elas ficam confinadas, afinal, 2/3 do Japão é feito de vulcão e não há espaço para pasto. Essa gente é incrivelmente criativa!

Visitamos Tokyo e ganhamos muitos presentes. Tiraram fotos nossas o tempo todo. É impressionante. Fomos a um grande templo e acendemos incensos, colocamos numa grande fumageira e passamos a fumaça na cabeça para dar mais inteligência - (como se isso fosse possível, mas, acreditar não faz mal!). Precisamos mesmo aprender japonês. Principalmente para ler esse monte de traços e anexar sons a eles. Acho que essa quantidade exagerada de peixe que estou comento está me dando alergia.

O almoço foi sinistro. Nos levaram a um restaurante de 200 anos. Comemos enguia ensopada e um peixinho cozido numa panela de ferro com ovo. Adivinhem... o preparado é feito 3 dias antes e as enguias e os peixinhos são jogados dentro com tudo o que tem direito... isso mesmo! Come-se com um pauzinho!
 Nove de outubro
Dia cansativo. Choveu a manhã toda e a Tchuco quase deu um treco de nervosismo quando nós nos perdemos e ficamos esperando no hotel. Ela estava tremendo. Eles são extremamente pontuais até quase beirando a loucura. Fomos a uma academia de ginástica bem modesta! 3 quadras de tênis e lugar para treinar golf com 2 piscinas internas com 25m. Uma com 3 raias e outra com 6. Sala para massagem e acupuntura. Sala de espera para relaxar. Tudo muito básico.

Visita a casa do Yoshida House - Esta casa só é aberta pra visitantes ilustres (me arrepiou toda! Kkk). Jardins exuberantes e um templo com a foto dos sete duques – embaixador na Inglaterra após a era Shogun. Voltou para o Japão e foi o primeiro ministro da era Meiji. Tudo muito lindo, muito denso, muita energia fantasmagórica no ar.
Depois quando Ihoko, Mari e Carla foram para o banho de Ofurô, eu fui para o boliche com o Dantcho, que eles chamam de “bolingo” – ganhamos! Eles não gostaram muito! Disseram q eu ganhei porque meu braço era forte! Fala sério!

Jantar – Tonkatsu (recheados com camarão, frango e repolho). Minha primeira gafe cultural. Eu estava explicando uma determinada coisa e peguei os hashis e “espetei” no meu potinho de arroz. Eles se jogaram para trás e disseram em coro “OOOHHHH”. Imediatamente eu retirei os hashis do arroz e perguntei: O que eu fiz de errado? Simples! Esse movimento é para saudar os parentes falecidos em seus túmulos, nos cemitérios. Que maravilha! Um jantar tão aconchegante, caro e fino e eu saudando os mortos! Que meu anjo da guarda me ajude!
  
Shopping Hykown – 100 ien (R$1,99) Aqui aconteceu o primeiro terremoto. Fantástico! Enquanto olhávamos a quantidade enorme de coisinhas inúteis que sempre queremos ter, os enfeites nas prateleiras começaram a tremer. A sensação é como se o tremor invadisse seu corpo. Vem das solas dos pés até a ponta dos cabelos. As pessoas passavam e não davam a mínima. Já acostumadas, com certeza. Enquanto isso nós nos olhamos e pensamos: O que está acontecendo? Incrível! Durou uns 2 minutos e foi inesquecível.

Dez de outubro
Visitamos a prefeitura de Oiso. Ganhamos um Kimono vermelho e um lenço de seda japonês. Nossa intérprete Missato nos ensinou alguns palavrões – Baka – merda. Ela é muito engraçada quando fica constrangida.Visitamos o prefeito de Hiratsuka. Ganhamos um kimono verde em comemoração ao Matsuri (festival da cidade). Ganhamos postais e um senhor de 65 anos nos falou sobre as máscaras do Kabuki que ele confecciona. Cada máscara leva em média um mês para ficar pronta. Ela é feita de pinho ou de outra madeira japonesa entalhada com todos os detalhes e pintada à mão.Cada máscara é estudada de acordo com a personagem da história que vai ser contada. Ele trabalha com o Mestre Kabuki que chama-se NOH. Ele me mostrou alguns símbolos – EVIL (mulher velha) representa os sentimentos internos como inveja, ciúme, avareza (por que será que esses sentimentos são representados por uma mulher velha?). Jovem príncipe – realeza e fineza; Jovem mulher – anjo e bondade. Cada movimento da máscara na representação mostra um rosto diferente mudando a expressão.
No almoço – comida maravilhosa – ganhamos flâmulas do Hiratsuka North e faixas para amarrar na cabeça, que são usadas pelos tocadores dos grandes tambores dos Festivais japoneses, o Taiko.

Dantcho e Ihoko san foram à fábrica de cerâmica Toto. Viram principalmente os vasos sanitários tecnológicos cheios de botões multi-uso. São impressionante. Parece um trono espacial. Dá até medo!
Eu e Iamaguchi conversamos sobre a poesia japonesa. Lembrei do Hai Kai chinês e ela me disse que em japonês é Hai Ku.
Visitamos também umas vacas confinadas numa sujeira danada. Nem vou falar do cheiro no ar! As gurias tomaram leite que nos foi oferecido com muito carinho e uma higiene danada de suspeita. Como não tomo leite, recusei educadamente. Provei um sanduichinho e uns biscoitos. Obrigada, senhor, pela minha saúde perfeita! Eles fizeram uma cara estranha. Melhor nem perguntar o gosto!

A apresentação de Koto foi bárbara. Koto é uma espécie de harpa deitada com muitas cordas. O instrumento tem quase 2m de comprimento e geralmente são mulheres que tocam. O som é divino. Uma das melhores tocadoras de koto tocou para nós quatro músicas. Misussuda.A primeira ela tocou com 13 cordas. A segunda com 13 cordas e flauta transversal com a aluna Sawada. A terceira com o Koto de 13 cordas e 17 cordas e o final com dois Kotos de 13 cordas “La Cumparsita”. O samba ficou pra outro dia!


Onze de outubro
Quando ficamos em hoteis, fazemos um revezamento de companheira. É interessante esse convívio com as pessoas. Sabemos da vida, da morte, das coisas que nos rodeiam. O que será que vem do outro lado para cá? O que será que vai daqui para lá?
Mari não está muito bem. Fiz uma limpeza de chakra nela e conversamos um pouco sobre o cosmos. Gosto de acreditar que somos instrumentos de paz, bondade, amor e confraternização. Sentimentos como raiva, angústia, impaciência, inveja, ciúme nos invadem durando o dia mas a grande deixa é saber transformar tudo isso em algo bom. Tento ser um bom ser humano. Ter paciência, principalmente isso!
A conversa de volta com Aioki-san foi proveitosa. Ele é um senhor de 80 anos e nos afinamos logo no início. Falamos sobre perdas, família, escolas, a vida dele, casamento. Morte. Ele me contou que não quer mais cães porque o que ele tinha morreu, depois de 10 anos de convivio com a familia. Ele sofreu muito, juntamente com os filhos. Eu disse para ele que a morte faz parte da vida. É a única coisa que é certa. Ele se imaginaria sem os filhos? Ele disse que não. Mesmo assim, ele sabe que podemos morrer a qualquer hora, e apesar disso ele arriscou ter 4. Sendo assim, por que resolveu te-los? Ele olhou para mim e sorriu um sorriso japonês, meio enviezado, com aqueles dentes amarelados e desnivelados. E me disse: "Irein, você é muito jovem para falar assim!"

O dia hoje foi fantástico. Detalhe: meu nome em japonês tem um som de IREIN. Eles não conseguem pronunciar a letra L.

CAIXA PRETA

Caixinha surpresa, como apelidamos, é uma espécie de marmita - BENTÔ - Elas vêm prontas para abrir e comer. São de madeira, finíssima, pintadas de preto com desenhos e letras kanji. Abre-se e tem sempre alguma crua cheirando a shoyo. Essa tinha peixe cru, peixe frito, peixe cozido, a sopa (como sempre) arroz, café e chá. Acaba-se de comer, fecha a caixa. E reza para a próxima ser um pouquinho melhor!



TOFU
O jantar de TOFU (queijo de soja) quase nos matou. Uma verdadeira orgia dos mais variados pratos com Tofu.
A bandeja redonda continha – sopa, arroz com 6 tipos de coisas diferentes que segundo a cozinheira levou 3 dias pra fazer (ele precisa ser fermentado! Melhor nem dizer o gosto que tem!), chá e saquê. Eles colocam uma espécie de panela de barro que vai carvão dentro. O carvão esquenta e prepara o tofu cozido com siri e verduras. Também tem tofu assado com carne crua, molho, peixe cru e pinha.
Mais tofu com peixe cru, uma espécie de polenta frita, pimentão, picles, etc.
Mais pratos foram servidos e potes colocados à nossa frente. É impossível comer pouco. O gosto é forte e como não estamos acostumados, quase enlouquecemos com tanta comida.
Eles disseram que isto era porque estavam nos mostrando como é a comida típica do Japão. É uma arte.
Cada pote, cada movimento “sumimassem” que vai sendo colocado à sua frente, representa uma cultura inenarrável. Os potes ganharam um concurso de artesanato como o primeiro do mundo. Até no final da janta, com tudo espalhado e remexido a mesa é linda.
Eles vão servindo saquê, cerveja, água, uns para os outros e comendo. Tomara que eu nunca esqueça isso.
Interessante – na cultura japonesa é a outra pessoa que serve seu copo.

O templo Xintoísta que visitamos foi algo sem medidas de valor. Para quem acredita, foi um presente. Foi feita uma oração especial e nossos nomes encaminhados ao Deus Oyama que é pai da segunda filha (Monte) Fuji. O sacerdote do templo entoou, como um canto gregoriano, nossos nomes e a reza. Antes, sentamos e ouvimos ele tocar o Taiko (grande tambor japonês) 1, 2, 3, devagar – 1, 2, 3, depressa. Várias batias e acalmando.
Uma espécie de espanador brando foi agitado na nossa frente nos abençoando. Ele se virou de costas, vestido a rigor, chacoalhou os inúmeros sinos e rezou. Depois ele se sentou, com o olhos fechados enquanto nós colocávamos uma madeira com papel branco no altar à nossa frente. Na saída, um imenso Taiko e uma imensa Kataná nas salas que se seguiam. Quando fomos visitar a caverna do dragão que carrega o Deus, acendi uma vela para a saúde de todos meus amigos, de todos meus familiares. Bebemos saquê e ganhamos um presente do deus. Ihoko acendeu uma vela também. Espero sinceramente que a sorte a acompanhe, e a felicidade também.

KOMA
Os piões, que são feitos aqui artezanalmente, fazem parte da arte japonesa. Dantcho e Carla puderam pintar o pião após o artífice passar o formão e arrumar a parte de cima. Cada um de nós ganhou um pião. Eles são grandes e tem uma corda grossa para serem lançados. 












Doze de outubro
Na visita à Prefeitura de hadano fomos convidadas a participar da apresentação de Taiko, juntamente com os mestres. Eles começaram a bater nos tambores e nós imitávamos o som. Ele até tentou uma batida de samba e fomos atrás, sem errar. Depois de castigarmos os tambores a vibração ficou nos braços e no peito. A repercurssão é bombástica. O som penetra não só pelos seus ouvidos mas pelos seus poros. O coração bate no ritmo do som e parece que vai sair pelo peito a fora.
Jantar chinês, para variar, ótimo! Uma comida bem light com o sirizão daqui – kani . Ele é gostoso mas a maneira de temperar deles muitas vezes estraga tudo. No jantar eles fizeram questão de indagar sobre a Amazônia como se eles tivesse direito sobre ela.
O parque – Togawa Park Center – é muito lindo. Mais uma cerimônia do chá, mais light desta vez.  Agora já não nos deixamos enganar pelos doces pretos. Eles são feitos de feijão e não de chocolate. Ai!!!!
O almoço estava terrível. Mari não estava se sentindo bem e nós não conseguimos comer direito.
Fechamos a caixinha preta e bebemos o chá horrível.
Roubei uma sementinha do tico-teco pra Carla.
A Mari foi ao hospital e nós fomos a fabrica da Toshiba ver a linha de montagem. Temos a impressão que eles pensam que o Brasil é só mato. Eles pensam que nós vamos roubar alguma coisa. Colocam um japonês na frente e outro atrás para nos cuidar. Não podemos fazer nada sem sermos controlados.

Frase do dia antes do banheiro – por favor venham o mais rápido possível! Até o xixi tem tempo certo!!!!
Todo o dia é a mesma coisa, eles sempre estão correndo atrás do horário e nós sempre adiantados. Eles é que se atrasam. Aoki-san chegou a dizer 5 vezes que era para nós estarmos prontos as 9h da manhã. Chegamos ao saguão do hotel exatamente cinco para as 9 para sairmos as 9h30. Chegou a ser engraçado. Ficamos todos sentados, olhando um para o outro. Aí, quando deu 9h30 eles levantaram e todos saímos. Pra que tanto? Que neurose! É uma angústia tão grande que eles têm relógio até no vaso sanitário. Sério!


Na cerimônia do chá em Otemoto nos foi presenteado hachis por um senhor idoso (todos são idosos aqui). Explicaram que Tchaco é a panela de aquecer água para o chá. Todas nós fizemos um chá hoje. Será que estão nos treinando para ficar aqui? Ai ai!!

Treze de outubro
 Só passaram 10 dias e parece uma eternidade. Hoje eu me senti bem cansada. Pode ter sido a cerveja com saquê de ontem à noite. Como eles bebem! Ou de repente sabem que os brasileiros bebem cerveja e resolveram aderir.
Conhecemos as montanhas de Odawara. A temperatura abaixou e está mais agradável. Fomos a um exposição de arte japonesa Yukarino Fine of Arts. Em Yugawara almoçamos com um outro grupo de rotarianos. A comida estava ótima.
Bolinhos fritos e um chá marrom melhor que o diabo verde.

Depois fomos até Kanagawa Aerospace Museum. Ganhamos um pin super caro e um livrão que vou dar para a Julia. O museu é lindo. Tem quilhões de bichos de todo o mundo. E pelo jeito eles adoram borboletas. É impressionante a quantidade de borboletas que eles têm da mesma espécie. “É uma questão de display” – disse-me um deles quando perguntei por que um painel tão grande 4m x 3m simplesmente lotado de borboletas azuis, vindas da Amazônia. 
Ele riu. Eu fiquei furiosa. Ele percebeu. Reinou um clima constrangedor ao redor. Eles nos tiraram dali rapidinho para ver os repteis.
No final do dia fomos seraradas em casas diferentes. A mulher parece bem rica e fica abrindo e fechando as portas o tempo todo. Ela me ensinou – Oiasuminasai: boa noite; Ohaio gosaimasu: bom dia; Neku: gato; a palavra para cachorro eu sempre esqueço. Ela me mostrou as porcelanas, a televisão, música, falamos sobre línguas, mostramos fotos. Ela é bem simpática. Na hora de nos separar nas casas tive a impressão que ela queria ficar com a Ihoko e o senhor Furukawa queria ficar comigo. Lástima! Tudo aqui é muito além da minha capacidade de estilo. Tem controle remoto para tudo aqui.

O segundo terremoto.

Estávamos na sala de estar ela conversando com o marido e comigo. De repente, ela suspirou e se retesou no sofá e olhou para um vaso de cristal de um metro e meio em uma mesa redonda no canto da sala, cheio de rosas.
O vaso balançava, tremia todo. As rosas chacoalharam. Uma sensação indescritível. O tremor vem do solo, sobe pelas solas dos pés e vibra pelo corpo todo. Impossível controlar. Não existe posição para ficar nem como evitá-lo. É simplesmente ficar ali e deliciar-se com as sensações. Pelo menos foi o que eu senti e disse, maravilhada – que legal!
Ela olhou para mim apavorada – com o terremoto e com minha felicidade. Neste exato segundo eu percebi a minha estupidez. Estava tão maravilhada em experimentar um terremoto que não me atinei para as conseqüências desastrosas que isso pode ter. Paciência. Uma amiga minha me disse uma vez que o que mais ela admirava em mim era minha autenticidade. Cômico. Constrangedor. Eu com um sorriso no rosto e a mulher preocupada com o vaso de cristal de trocentos dólares! Não se pode expressar o que quiser assim, desse jeito. Pelo menos não no Japão – achar que um terremoto é “legal”.

Quatorze de outubro
Odawara - Hoje fomos até Sounzain Mountain. Subimos de trem, pegamos o teleférico, almoçamos (eu não consegui comer direito), ganhamos uma lembrancinha (hiotãn – porongo). Coloquei na minha máquina fotográfica Agfa. Que, diga-se de passagem, chamou uma atenção enorme aqui. Eles são fanáticos por fotografia. E minha máquina é antiga. Meu pai trouxe da Holanda em 1960. Imagine! A capa dela parece um capacete de nazista.

Experimentamos os ovos cozidos na água de enxofre. Cada ovo comido dá 7 anos a mais de vida saudável. 
Pegamos o cable car novamente, depois o navio e chegamos a um templo xintoísta – Hakone Shrine.
Fomos abençoados e ganhamos comida e outras coisas. Sache também. Comitchiuá: tarde;
Cambauá: noite.


Quinze de outubro
De manhã fomos a Odawara Castle com um guia lindinho e uma guia velhinha muito querida que falava inglês e foi nos apresentando tudo. Vestimos-nos de princesas, tiramos fotos e fomos ver o museu. É impressionante a quantidade de coisas que eles guardam. Especialmente armas. Tem uma espécie de flecha-lança que eram usadas para caçar os fugitivos. Vi algumas gravuras das torturas e as máscaras e os uniformes dos samurais.
A velha me disse que cada família tinha uma roupa diferente e entre elas, dependendo da hierarquia de importância, certos tipos diferentes de capacete. O almoço foi chinês e gostoso. Fechamos com a sopa de tubarão. Vimos uma noiva vestida de kimono e o rapaz me disse que são as mulheres que escolhem o tipo de casamento que querem ter. Pelo menos isso!
Daqui eu escuto um trem que passa. A minha mama me deu um símbolo de casamento e postais. Também me deu bolsinhas para as minhas mães no Brasil. Ela adorou a foto do Hugo. Ficou olhando para ela um tempão. Na saída ela se agarrou em mim e disse que iria sentir a minha falta. Ela é riquíssima. Me senti dentro da própria revista Casa Claudia. Aoki-san estava aqui para nos cuidar novamente. Ele é o responsável pelo GSE e também parece ser o sargento das Armas. O tempo todo ele faz questão de nos dar as horas. Hoje a minha mala foi a última a chegar no quarto e eu cheguei três minutos atrasada na festa. Estavam todos me esperando e achei que ia para o tronco. O jantar estava divino. Comemos massa e nos atracamos nas frutas – raridades caras por aqui. Cantamos para o povo e o presidente de alguma coisa cantou uma canção de despedida para nós, de amor. Tinha a voz de um tenor maravilhoso. Ihoko disse que ontem à noite ele e o Dantcho estavam no Karaoquê na casa do Sr. Furukawa. Beberam saquê até cair! Nada como uma boa diversão! Rir é o melhor antídoto natural para qualquer veneno na vida!

Para quem chegou até aqui, ainda vem a segunda e ultima parte.
Muita coisa ainda para contar. Ah, e as fotos foram alteradas para ficarem "ruins" mesmo.
Arigatô!


03 dezembro, 2013

Uma voltinha pela Europa




“Quando você começa a envolver o emocional em tudo o que você faz, você se acorrenta ainda mais.”
Esta foi a primeira frase que encontrei, por incrível que pareça, depois de dois anos, em um caderninho, minhas memórias sobre a viagem que eu e Sandra fizemos pela Europa. Um loop da Inglaterra até de volta a ela! Passamos pela França, Italia, Suiça, Alemanha, Holanda e Belgica. No meio disso tudo, em 21 dias, muitas impressões. Aqui vão algumas delas.

Anjos.
Você acredita em anjos? Eu sim. Depois de visitar uma amiga de infancia em Londres, ela nos indicou o caminho pelo “tube”, metro de Londres, para chegar até Canada Water e nos encontrar com o grupo. Fácil! Interessante como os anjos nos ajudam nas simples descobertas. Grandes espiritos de luz. Obrigada. Nunca tinhamos estado ali e não sabíamos exatamente para que lado seguir. Então, procurando o lugar, eu vi escrito no carro o símbolo da excursão “Expat”. Quando chegamos perto o que vimos eram latas de lixo verdes, e pronto! Não tinha nada escrito! Rimos muito. Eu e minha dislexia angelical.

Amigas.
O convívio nos dá a impressão que somos simples e bem entedidas. Errado. Estamos sempre conjecturando sobre os outros e cometemos o erro de não perguntar – e perdemos a melhor parte. Nos afastamos da essência e ficamos no superficial. Nos deixamos levar pelos nossos próprios valores e esquecemos que a outra também tem um coração. Igual ao seu!
As pessoas buscam amor sem saber que ele está diretamente ligado à liberdade.

Paris
Bon soir de araque. França é latina, suja, barulhenta, velha e cinza. As pessoas se julgam mais importantes e os homens tem aspecto andrógeno. Igual e muito diferente. Vive le Brasil! A arte, a cultura, é claro, imcomparáveis, como qualquer outra.
Mas o pão, não! Quem chamar o nosso pão de pão francês merece cadeia. Aqui o pão é duro e torrado. Como bons brasileiros melhoramos isso também.
Aos olhos virgens do visitante tudo é muito lindo, digno de fotos. Enquanto paramos para registrar 360 graus de história, os nativos passam por nós com os ouvidos tapados com earphones dos i-qualquer-coisa e sequer percebem que os degraus de mármore da praça estão tão gastos que formaram um outro degrau.

O Louvre.
É o único lugar limpo da cidade. Impossível conhecer tudo em um dia. Precisaria morar aqui para conhecer tudo. Monalisa – Gioconda – está perdida e solitária numa proteção de vidro em uma sala enorme com a Santa Ceia mais maluca que já vi alguém pintar, do outro lado. E lá está ela, olhando todos com aquela cara infeliz. E os que olham para ela, pensam que são felizes por estarem ali, fotografando-a. É uma sinfonia de diafragmas estalando por todos os lados. Foto da pintura atrás do vidro. O que é mais importante? Ter a foto? Provar que viu a Monalisa? A presença na sala pouco significa. Está mais distante do que Da Vinci agora. Se você conseguir uma foto pela internet vai conseguir ve-la melhor.
E nos perdemos no metrô, novamente! (risadas)
Choveu, fez sol, fez frio, fez calor. Dia perfeito em Paris!
Ah, fui até pedida em casamento. Mas quando ele pediu dinheiro, eu desisti. Não tinha dote!
É absurdo a quantidade de situações inusitadas que passamos. Ser turista é uma arte!

Sonhos.
Alguém me disse, ou foi um sonho  –“ Eu não quero que sejamos amigos. Não é uma questão de amizade. É uma questão de energia! Siga seu coração e você não irá se machucar. Acredite nas coisas que você sente. Seja egoísta um pouquinho. Não é uma maldição. É um caminho para a liberdade. Suas escolhas vão guia-la bem.”

Avignon.
Tudo muito deserto. Jantamos salada e um frango esquisito. O local da cidade onde ficamos é cercado por muros onde no centro é o palácio do Papa. Muito lindo. Muito antigo. Muito sinistro. Saímos de manhã para fotografar com um dos colegas indiano da excursão. Ele mora no canadá a 10 anos e é meio maluco. Afinal, quem não é? Engraçado como algumas pessoas sentem vergonha das suas origens. Ele disse que é canadense mas tem um sotaque denunciante. Incrível! Depois de muito fotografar as pedras voltamos correndo na chuva. Na hora de voltar ele queria ir para o outro lado. Depois de uma brevíssima discussão eu simplesmente saí andando pela direita e Sandra me seguiu sem pestanejar. Ele cedeu, pois então ficaria sozinho, e veio atrás de nós duas. Meu GPS natural funciona maravilhosamente bem. Chegamos no onibus a tempo! Obrigada!

Vinhos.
Visitamos um castelo que fabrica vinhos na região de Burgundy. Compramos vinho (pagamos caro). O vinho espumante é delicioso! Ganhamos rolhas... veja só! Gostei do cachorro que nos recebeu em uma espécie de porão onde guardam os imensos barris. Bicho preto, sociável, simpático. Uma cadela. Tiramos fotos. Ela era mais interessante que o cheio de álcool que estava no ar... e a chuva, e o mofo, e os fantasmas...

Pont Du Gard.
Ponte Romana. Linda! Mais uma caminhada na chuva. As fotos estão fantásticas. No caminho, um monte de nozes do Tico e Teco. Arrecadei algumas que estavam no chão. Elas estão aqui, agora, em cima da minha mesinha, olhando pra mim... vieram de tão longe!

Riviera Francesa
A Riviera é linda. A paisagem fantástica! Não é a toa que uma casinha aqui custa um milhão de dólares! Mais memórias de filmes. Mais memórias de vidas que estão guardadas em algum lugar.

Perfumes
Visitamos uma fabrica de perfumes chamada Fragonard. Comprei um kit pequeno e caro. Tudo é caro ou eu não ganho o suficiente para simplesmente deixar que o dinheiro escoe pelos meus dedos sem fazer contas. Afinal, fazer uma viagem e ficar contando moedas não combina. Como disse minha amiga Luciana, quem converte não se diverte. Então, vamos aproveitar! O kit com 5 fracos de aluminio irão durar 9 anos, segundo a linda e maravilhosa vendedora/quimica/marqueteira da perfumaria. Acredito nela desesperadamente. Afinal, quero que o perfume dure mesmo! Minha companheira de viagem comprou um kit juventude.... muitas e muitas risadas... juventude está no espirito. Vamos rir!

Nice.
Muita gente linda. Homens lindos. Os homens tem uma fisionomia perfeita. Não é a toa que um colega saiu do armário e veio morar aqui. É perfeito! Caminhamos por toda a cidade com um mapa e o celular com GPS da Sandra. Adoro essa tecnologia. Pegamos o onibus e fomos até a parte mais alta. Andamos de trem. Tudo é muito simples e civilizado. Não existem roletas no transporte público. A consciência coletiva é imbatível. Ninguém te cobra nada. Simplesmente você faz porque todos fazem e é assim que o sistema protege você e você protege o sistema. Seguir o correto faz parte da educação que está arraigada no sangue do povo.
Charles De Gaule estava lá, numa estátua no meio da praça, na feira pública. Quanto termina o horário da feira vem a limpeza pública e lava a calçada. Os pombos fazem a festa. Aliás, uma ave global. Existe algum lugar aonde elas não estejam?
O jantar estava maravilhoso. Vinho, uma salada maravilhosa, massa. Nem consegui comer tudo. Quase pedi para embrulhar para levar para o “gatinho”. Fantasmas no quarto.

Florença.
Caminhamos pela cidade a noite. Nas janelas das casas pude ver nos rostos das mulheres traços das minhas tias. Parece que cada passo, cada pedra, tem sensações e cores únicas. Ninguém percebe, ou já estão tão acostumados que fazem parte da energia que os abraça. Hotel barulhento, cheio de fantasmas e camas rangendo. Foi só uma noite, inesquecível!

Veneza.
Me senti em casa, novamente! Andar em Veneza é fácil. Nem precisei de mapa. É só seguir as placas amarelas para onde você quiser ir. Antonio nos levou no passeio pelos canais na gondola que ele disse estar na família há 4 gerações. Ele tem 40 anos e faz isso desde os 9 anos. Eles são mestres nesta arte. É bonito ve-los manejar o barco como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Suiça.
Lauterbrunnen - Quando mais eu subo, mais lindo fica! As montanhas, o cenário. Até a água é melhor. Subimos até o topo e descobri que a neve me apavorou. O frio é ótimo e ofuscante. Gente caindo e escorregando. Lembranças de um acidente comigo e um esquiador, explodiram no meu peito. Saímos dali rápido e nos enfiamos em um dos túneis de puro gelo. As esculturas são incríveis. O chão escorregadio e a atmosfera macabra. Tudo fazem para explorar o turista. Nós agradecemos a criatividade! Encontrei um relógio lindo para minha afilhada: suíço, com uma corrente para pendurar no pescoço.
De volta ao hotel fizemos uma caminhada até a cachoeira, por dentro da montanha. Visitando as casas e os currais com as vacas e os carneiros, não resisti e passei a mão em um deles. São mansos, esperam comida. E as vacas tem sinos nos pescoços. Desenho animado! Hotel Schutzen com uma cama divina e cobertor japonês. Frigobar é só abrir a janela. A montanha é logo ali, depois do telhado. Capuccino delicioso no café na esquina.

Boppart.
O castelo de Loreley. A mulher que se atirou da montanha, dentro do rio Reno, para não se casar com quem não amava. Até hoje os marinheiros que passam na área tem medo de sofrer algum naufrágio. Segundo a lenda, é ela que chama os homens para dentro d’água. Enquanto passeávamos pelo Vale do Reno em um barco, vimos o castelo ao longe. Café, vinho, conversa, silêncio. Aliás, o café é ótimo. Nem coloquei açucar! http://www.youtube.com/watch?v=GboWNnxMgys
Alemanha é mais organizada, os homens são mais feios, as pessoas mais gordas e fumam mais. Não vi mulheres grávidas. As crianças pequenas são estrangeiras, na maioria.
O país é muito bonito. Ao longo da estrada vimos plantações de batatas, couve, repolho. Caminhões de batatas vão e vem. Hotel quentinho, carpetado. Internet zero. Chuveiro com hidromassagem, cama ótima. Um monte de janelas no quarto enorme. Eta vida boa!

Amsterdã.
Isso aqui é uma bagunça. Homens altos e lindos. Meio cínicos. Irônicos. Acredito que saibam da sua beleza. Afinal, auto estima é tudo! Carro, trem, bicicleta, onibus, gente, malas, carrinhos de bebês, tudo ao mesmo tempo, agora em seus tamancos! Indo e vindo. Numa confusão organizada entre buzinas, sinais de transito e guardas. Passeamos no famoso bairro vermelho. As mulheres na vitrine não são melhores nem piores do que as brasileiras que encontramos nas nossas praias. O mais interessante são as vitrines com neon azul e vermelho. A cor vermelha é para as mulheres. A cor azul identifica o travesti. Tem para todos os gostos. Na verdade, Napoleão é que pedia para seu médico examinar as mulheres que acompanhavam a tropa a fim de identificar alguma doença. Se elas estivessem “limpas” ganhavam um cartão vermelho. Adoro história! E no final das contas não provamos os famosos brownies com maconha! Os nomes todos terminam em Dam. Hotel frio, sem tapetes. Andamos muito até chegar no quarto. A vista maravilhosa para os barcos na marina.
Quando cheguei em Volendam liguei para meu pai. Perguntei para ele se adivinhava onde eu estava. Ele acertou na primeira tentativa! Tirei fotos e mostrei para ele depois. Reconheceu vários locais apesar do tempo. Ele ficou emocionado e eu também. É isso que levamos dessa vida!

Belgica.
Voltando para Londres, pela fronteira com Belgica e França. Encontramos um fiscal na alfândega no final da carreira. Gordo, careca, antipático. Toda a linguagem corporal nos dizia que a inveja e o mau humor imperava naquele ser de baixa estatura. Ignorante e arrogante. Ele pediu o e-ticket da passagem de retorno ao Brasil e eu mostrei o recibo da passagem. Não foi suficiente. Ele sequer leu o papel. Começou a complicar e depois de muito conversar e sugerir outras coisas, perguntou nossa profissão. Quando falei Petrobras ele mudou de atitude. Infame! Carimbou nosso passaporte e falou umas besteiras. Conseguimos passar. Como se nós quiséssemos ficar ali e lavar a louça dele. Longos dez minutos.

Londres.
Do hotel para o aeroporto de Heathrow foi outra odisséia. Duas horas e quarenta minutos trocando de linhas e arrastando malas. Povo educado, nos ajudando nas escadas. Ninguém liga se você tem mala grande ou pequena, se você fala inglês ou chinês. A educação é a melhor arma que alguém pode ter. Com licença, obrigado, desculpa. Abrem-se as portas da gentileza e todos somos felizes para sempre! E quando cheguei em casa descobri que meu cartão de crédito tinha sido clonado no Holiday Inn, em Londres. Isso não é muito chique???

Lugares.
De tanto ver filmes não vejo nada de novo. A impressão é como voltar para casa. Melancolia. Como é possível sentir que está matando a saudade de um lugar que nunca estive, pelos menos fisicamente, nesta vida? Cada canto, cada espaço tem um pouquinho de deslumbramento e paixão, é parte da vida. Observar minha companheira de viagem brilhar os olhos com tudo que vê como se fosse a primeira vez é interessante. Em alguns momentos percebi que estou por aqui sempre. Muitas coisas são parecidas com o Brasil. As flores, as paisagens, as árvores. Realmente o mundo era um só e se partiu em muitos e a humanidade mudou sua língua e seus costumes. Vai ver é por isso que é tão difícil aceitar o que é diferente, portanto, difícil amar, pois tudo se mistura e já não entendemos nossa própria origem.



É verdade que tudo depende do ponto de vista. Suas emoções controlam praticamente tudo, mas, educação e respeito faz parte do todo. Nivelar as pessoas pelo que somos ou fazemos nos faz sofrer. Entendo e respeito o jeito de ser dos outros mas isso não significa que aceito. É no aceitar que deixamos as emoções tomarem conta. A razão não prevelece e acabamos invadindo o território alheio. Paciência. Temos muito que aprender ainda. Talvez precisemos de um retiro longe do mundo para aprender a lidar com a falta de carinho, amor, suavidade. “Há que endurecer sem perder a suavidade.” Ele sabia. Guevara sabia quando falou isso. Ele sentia. Embora tivesse na cabeça a vontade da guerra, ele carregava no coração o olhar do amor. Lembrei da musica, “You gotta be”, da  Desiree. Ela canta – “Você tem que ser mau, destemido, sábio, duro, forte, com garra, tranquilo, equilibrado, desencanado. Pois o amor vai salvar o dia.” http://www.youtube.com/watch?v=JhpZfltbnAQ

07 junho, 2013

Mar de Rosas

Foto: FPES Lorena, Edson, Jaelson, , Elaine


Aqui estou eu, fazendo o HUET pela quinta vez. Explico que é um curso com siglas em inglês que significa algo parecido como: Treinamento para Escapar de um Helicoptero Embaixo D’água. Coisa pouca. Imagine que você vai voando para o trabalho (meu caso) e, de repente, o bicho dá uma pane e cai dentro da água. Você, muito bem treinado, com todo o próprio pânico controlado, já sabe como escapar, principalmente se o helicóptero virar de cabeça para baixo.
Isto é apenas um dos cursos básicos que nós, que trabalhamos embarcados, precisamos fazer para estarmos aptos a trabalhar na vida no mar.
Ultimamente tenho pensado – ou melhor – observado o pessoal que embarca apresentar inúmeros problemas físicos e psíquicos. Conversando com meu colegas eu escuto todo tipo de problema. A principal reclamação é manter um relacionamento saudável. Com nossas prolongadas ausências, geralmente de quatorze dias, ficamos longe da vida diária ou da rotina de nossa família, principalmente filhos e conjuges. No início o deslumbramento com a pessoa que embarca – todos acham que na “folga” não fazemos nada – parece o paraíso. Mas depois o longo período de ausência vai levando a uma angústia por parte, principalmente, de quem fica esperando, que provoca naquele que embarca, um profundo desespero. Aí começa a gerar a tristeza e, consequentemente, a depressão. Os telefonemas não param de acontecer, prejudicando o trabalho a bordo e atrapalhando a concentração. A insatisfação com o trabalho vem logo depois, fazendo com que nada seja bom. Os defeitos do ambiente no qual trabalhamos começam a sobrepujar as qualidades. De repente, não há mais relacionamento e lá vamos nós para nosso terceiro casamento e o quinto “PJ” – para quem não sabe: Pensão Judicial.
E na fila da terapia se encontram os filhos que já são meio-irmãos, com dois pais, quatro mães, oito avós e um monte de outros parentes, deixando todos sem referência e fazendo o inferno em uma sala de aula.
E também temos a fila das doenças que só cresce. Surtos, TOCs, ataques de pânico repentinos. Aquela doença de pele que faz os cabelos caírem junto com as sombrancelhas. Horror! A psoríase que deixa seu corpo explodindo de ansiedade dizendo para você: seu mundo interior não te quer mais no mundo exterior!
Trabalhar em um ambiente confinado faz com que senso de liberdade entre em desespero e isso só vamos perceber mais tarde na taquicardia inesperada, nas insônias, hipertensão, diarréias, mau humor, pessimismo e ansiedade.
Numa conversa com um dentista fiquei estarrecida quando ele me disse que todas as pessoas que trabalham embarcadas, as quais ele trata, tem bruxismo. Incrível! Imagine uma tripulação de trabalhadores rangendo os dentes, mastigando-se, lutando com seus monstros enquanto dormem! Que sinfonia!
Por isso que fazer cursos na nossa folga é tão irritante. É como se invadissem nossa paz novamente. Nos trouxesse de volta ao trabalho que apenas queremos “apagar” por uns dias. E o que me levou a escrever sobre isso foi meu apagão. Falta de memória! Simplesmente esqueci que o curso de HUET estava marcado, e sem ele eu não posso embarcar.
Me lembrei que vários colegas já comentaram sobre isso. Esquecimento. E eu que me gabo de não usar agenda. Nunca usei porque gosto de exercitar minha memória e assim tenho tudo gravado. Horários, locais, pessoas. Será que além das lesões físico-básicas que adquirimos ainda temos que incluir a falta de memória no CV de doenças offshore?
Já perdi dez por cento da capacidade auditiva do ouvido esquerdo e engordei montes de quilos; consegui lesões na coluna e varizes. Não vou citar aqui os pormenores sórdidos da minha vida amorosa porque meus amigos já sabem como é... ou não é! Sem contar que o maior índice de disfunções sexuais se encontram nos homens que embarcam. Usem a imaginação... Por que será?
Marcar consultas é outra dor de cabeça. Além de existir uma data velada de agendamentos para o plano de saúde você precisa ligar “do dia tal ao qual”. Se eu estiver embarcada nesses dias nem adianta insistir. Aí entra minha mãe e sua gentileza ao telefone. Mas, e para quem não tem “mãe”? Sabemos que comunicações a bordo são difíceis e temos que contar com a boa vontade daqueles que retém o poder dos telefones.
Nossa vida social é feita de datas perdidas. Casamentos, aniversários, carnaval, ano novo, natal. Feriados prolongados onde você se desencontra de todos! E quando tenta organizar sua rota para ser o padrinho na formatura do seu melhor amigo, tem que depender da boa vontade do seu “back”. Mais stress!
E um grande perigo que poucos tem consciência é o círculo vicioso do dinheiro fácil: a atraente Dobra! Ela te dá muito dinheiro mas leva sua sanidade. Vender as férias pode ajudar a comprar o carro e terminar a obra mas cobra seu precioso tempo, o de não estar com aqueles que lhe são caros. Cuidado! O vicio do dinheiro traz ganância e adoece o espírito. Voltamos daí, à estaca zero. Como disse um grande sábio:  “Para que eu preciso de três pares de sapatos se só tenho dois pés?”  O carro na garagem, a família dentro de casa, confortavelmente me esperando... E eu embarcado!
Claro que também temos motivos positivos para levar essa vida trabalhista neste ambiente aquoso. Caso contrário, não estaríamos aqui, mas, só para constar, para aqueles que acham que nossa vida é maravilhosa; que trabalhamos só metade do ano; que não fazemos nada na nossa folga e ainda reclamamos, gostaria que lembrassem que temos família, sentimentos e um corpo físico que se deteriora como os outros. Sem contar que o desgaste psicológico é intenso. E ainda temos que ouvir gracinhas como “Pião é a imagem do cão”. Onde está o respeito pela essência divina que reside em todo ser humano?
Se isso não for suficiente, para estimular a solidariedade, venham trabalhar aqui e sentir o perigo de perto. Saber que literalmente estamos todos no mesmo barco e precisamos uns dos outros em cima desta bomba... Mesmo!
Me lembrei de uma música do Titãs, Comida, que pergunta: Você tem fome de quê? A maioria diria liberdade ou independência. Independência é utopia. Liberdade é sonho. Minha fome é de respostas para perguntas que nem sei se são relevantes ou se farão diferença quando forem respondidas. A fome verdadeira é de respeito. Respeito pelo trabalho que fazemos e pelo amor que sentimos.
De longe o mar é lindo e misterioso. De perto ele é solitário e cruel.

29 janeiro, 2013

Infinitos Cinquenta Tons de Vida



Não pense que vou escrever sobre o livro mais famoso do momento, desculpe decepcionar vocês. Esse cinquenta tons é apenas uma alusão aos cinquenta anos já completos de uma amiga-irmã, aos cinquenta anos de outra amiga-irmã que está chegando e os meus cinquenta! Ah, sim, tecnicamente sou a mais nova das tres. Isto só me faz rir. Quando na verdade, por tudo que vivemos, a idade cronologica não é a espiritual, nem mesmo a psicológica. É que, dependendo do momento, somos agraciadas com nossas cinquenta caras, nossas cinquenta escolhas, nossos cinquenta sentimentos diluídos em cinquenta emoções. E não são cinzas. Embora o cinza, o branco e o preto estejam presentes, a maior parte do tempo é amarelo... Ouro! Da energia que compartilhamos, das risadas que trocamos, das lágrimas que testemunhamos. Isso faz bem mais de cinquenta. Só nós tres juntas formamos cento e cinquenta. E com nossa irmandade, que sentimos vem bem antes dessa vida, é simplesmente impossível determinar um número, imagine então, uma cor.
Antigamente chegar aos cinquenta era uma marca da velhice. Cabelos brancos; rugas; andar lento, curvado; cansaço; voz baixa, desgastada; um sorrisinho no canto da boca ou as vezes um olhar duro, amargo, sem nenhum vestígio de felicidade. Esse era o tom da velhice dos cinquenta. Hoje a juventude e a maturidade se confundem nos vários tons de cabelo, nas várias artimanhas da dermatologia para mascarar as rugas. É preciso ter cuidado para não cometer uma gafe ou ofender alguém quando mencionar seu tempo. As pessoas estão preocupadas com a aparência e deixam de lado o coração, literalmente.
Enquanto os enfartos aumentam a indústria da maquiagem fica milionária. O grande perigo é darmos mais valor ao supérfluo e não nos atermos aos valores humanos. Amizades, relacionamentos, férias, livros, café com pão de queijo, uma tarde de filmes com os sobrinhos, viagens, uma boa conversa, risadas à vontade à beira mar, tapioca, um bom camarão ao molho de mostarda com mel. Ah, como é bom chegar aos cinquenta. Como é bom acordar todos os dias e agradecer ao sol, ao ar que respiramos, aos familiares que estão vivos e também aos antepassados que nos proporcionaram chegar ao ponto que estamos.
Devemos agradecer aos privilégios que nos são dados todos os dias. Mesmo doentes, mau humoradas; mesmo que aquela dor lombar persista e eu precise ir ao dentista, vou olhar tudo pelo lado bom. Tenho condições de ir ao médico e comprar meus “remedinhos”. Tenho um corpo suficientemente perfeito para me dar liberdade de ir e vir. Tenho dentes! Ah, dentes! Você já percebeu como os dentes são importantes? Quer coisa mais cativante do que poder sorrir, com o bocão aberto, mostrando todos os tons de branco numa risada poderosa e revitalizadora?
Está mais que na hora de entender que estamos apenas na primeira fase dos cinquenta anos. Depois de pintar nossa vida com tantos tons, a palheta de cores nem começou a ser usada ainda. Já choramos, já sorrimos. Enfrentamos mortes e nascimentos. Batizamos, oramos, compartilhamos o pão, o café, o arroz. Mentimos, fomos verdadeiras. Calamos, dissimulamos. Promovemos a paz e enfiamos o garfo da guerra em alguns corações. E continuamos pintando...
A única certeza que tenho é que deixaremos nosso corpo neste plano em algum momento. Quando, não sei. Não me lembro os termos do contrato que assinei. Enquanto isso aumentarei minhas orações. Agradecerei mais. Serei mais verdadeira. Calarei se tiver que magoar. Guardarei o garfo da vingança e a faca do rancor. Jogarei fora minhas amarguras e vestirei cores mais alegres. Ainda vou tentar colocar na parede do meu quarto uma enorme fotografia de nós três juntas: Penélope Charmosa, Betty Boop e Branca de Neve.
E, acima de tudo, viverei intensamente todos os tons da minha vida, agradecida por ter belas amigas. Minhas irmãs: nossos cinquenta tons de vida realmente são infinitos. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Obrigada por me emprestarem suas nuances, juntamente com seus pincéis, me ajudando a colorir a minha vida. Independente da foto na parede, tenho um amor infinito por vocês no coração. Thamar e Rosemary (em ordem cronológica!)

23 abril, 2012

Amizade



Há algum tempo atrás, fiquei feliz pela possibilidade de fazer um novo amigo. Ledo engano. Acabou tornando-se meu ex vulgo amigo. Você deve estar pensando: afinal, ex amigo, ou vulgo amigo? Vou tentar explicar. Imagine que você pensa que tem um amigo e de repente, esse amigo não existe mais! A amizade ficou no passado e, portanto, não era amizade, era uma “vulga amizade”. Pior que a culpa foi minha. Eu estraguei tudo. Eu o magoei. Falei o que ele não queria ouvir, e o afastei com minha ferina verdade. Fui insensível e não respeitei os sentimentos, o tempo, a fase que ele estava passando. Talvez na ânsia de tentar ajudar eu estraguei tudo.
Mas fico pensando que na vida real existem vários tipos de amigos-colegas. Aqueles que riem contigo; que contam segredos; que apenas falam; que só escutam; que te emprestam dinheiro; que te dão carona; que te ligam no meio da noite; que não te ligam nunca, mas sabem seu número de cor; que “sentem” sua desgraça e veem correndo e aqueles que só te abraçam e não precisam dizer mais nada.
Sim, são muitos amigos, colegas, pessoas presentes no trabalho, na escola, em casa, na vida. E aqueles que foram criados contigo e que não se perdem nunca!
Cada amigo precisa de um tipo de alimentação diferente e dependendo do seu horóscopo do dia você acaba “molhando demais a planta” e encharcando a raiz, matando de vez a amizade. Pois é, afinal, como deve se comportar um amigo? Ser sincero, omisso, fiel, alegre, dar tapinhas nas costas, fingir que não vê, fazer de conta que está triste também só pra consolar, ser duro, sensível, irônico? Não sei! Talvez tudo isso faça parte do todo mas do meu ponto de vista, para se manter uma amizade tem que haver confiança e esta só vai ser adquirida com respeito e verdade. Fui verdadeira demais. Achei que estava segura em nossa recíprocra confiança e fui mal interpretada. E pior, fui afastada e portanto, não perdoada.
Não vamos nunca encontrar a fórmula mágica ou o manual onde os relacionamentos possam ser estudados e aplicados a este ou aquele caso. Enquanto falarmos sobre seres humanos andaremos sobre uma corda bamba, sem rede embaixo para salvar nossa queda. Afinal, que tipo de amigo eu quero: aquele que vai contra minhas loucuras ou aquele que é conivente com minhas demências?
O mais interessante é que quando falamos a verdade, quando expressamos nossos sentimentos, abrimos nosso coração, esperamos uma boa reação. Mas sempre acontece ao contrário. Vai ver que é por isso que aprendemos a mentir desde crianças. Não nos é ensinado a valorizar a verdade. Nos sentimos seguros atrás da mentira. E assim proceguimos na nossa vida adulta e acabamos por nos transformar em grandes covardes.
Se eu mentir, você vai me amar para sempre porque vou compactuar com seus sentimentos, com seus atos, com suas escolhas. E assim, você vai se sentir seguro e feliz sem o compromisso da responsabilidade. Simples!
Por isso, quanto mais velha fico, vou atando ainda mais os laços antigos que me dão segurança e que sei, são verdadeiros. De qualquer forma, tudo que fiz veio do meu coração, com a intenção de ajudar. Tudo bem, como dizem, o inferno está cheio de boas intenções. Que bom, quem sabe o inferno não é tão mau assim. Se as ações infernais forem feitas com amor, o diabo provavelmente deve estar tentando se mudar.

22 abril, 2012

Insônia



Depois de muito rolar na cama, ler, fazer alongamento, cantar, ouvir música, mexer no celular e montar uma lista de preferências... resolvi escrever. Faz tempo. Vai ver por isso não consigo dormir. Tenho que colocar para fora essa explosão de pensamentos, essa mente que parece querer lançar lava para todos os lados.
Deixe estar – são momentos como esses que provocam o nascimento de coisas fantásticas. Um famoso ator/diretor/roteirista brasileiro conseguiu canalizar toda sua criatividade em sucesso por causa da insônia e tem gente que se queixa disso. Se formos computar todos os insones famosos perceberemos que tudo é benção. Já pensou que talvez o corpo não queira dormir porque tem algo mais a fazer? Então descubra. Não lute. Inútil! Deixe fluir a energia do contra-sono e relaxe - de forma contrária à ansiedade. Não fique pensando que as horas não dormidas vão te deixar cansado, pelo contrário. Cansado ficamos por querer dormir e lutar contra os pensamentos. Levante-se, vá ver um filme ou simplesmente se escute e veja o que seu corpo-mente-espirito está pedindo. E faça! Você sente fome porque o estomago está vazio, e aí come! E assim são os pedidos do seu corpo.
São inúmeras as sedes, incontadas fomes! Fome de alegria, de amor, de contato, de notícias, de prazer; sede de sair, de mudar, de matar, de desaparecer, de liberdade. Insônia é seu corpo contra atacando e se vingando – só um pouquinho – porque agora ele quer o momento dele, e tem que ser acordado!
Aproveite e se escute, sem preocupações com o relógio-amanhã. Aliás, o que me lebra um livro que li – que recomendo, ali ao lado na lista dos nossos livros,  da T. Bertherat – “Há quem fuja do presente projetando-se para o futuro, o que provoca a ansiedade – que nada mais é do que a distância entre o agora e o depois.”
Nossa sede por realizações futuras nos deixam tão distantes do presente que nos causa doenças.
Chega de ansiedade. Não quero me partir em pedaços e deixá-los no passado ou atirá-los no futuro. Quero tudo agora, inteiro. Vamos reformular a frase – eu sofro de insônia, por - eu curto insônia! Vamos pensar que a falta de sono é um presente do que o teu corpo te dá para que viva mais um pouquinho, aqui, acordado.
Aqui estou, embarcada, ouvindo música, escrevendo e pensando em pegar um capuccino. Tem coisa melhor? Com certeza, cada um que sabe a sua “coisa melhor”. Posso dormir depois e deixar os sonhos me levarem, mas agora vou eu mesma pegar meus sonhos com as mãos e me deixar navegar... acordada!

23 dezembro, 2011

Bodas de Ouro


Meus pais fazem 50 anos de casados hoje. Bodas de ouro! Embora o casamento seja deles eu me sinto também comemorando 50 anos de vida boa, numa família forte, cheia de altos e baixos mas firme no propósito de evoluir e agregar valores.
Pois foi isso que aprendi, que consegui adquirir e tento passar para as pessoas que estão a minha volta. Honestidade, integridade e lealdade. Por mais que nosso caminho fosse feito de espinhos, era só olhar mais um pouquinho para cima e veríamos as rosas.
Pai firme, sincero, protetor feroz e autêntico. Mãe dedicada, flexível, espiritualizada e extremamente inteligente. Esses ingredientes nos fizeram pacientes, críticos e sonhadores. E misturando nós 5 conseguimos chegar até aqui com uma base sólida onde a referência da família é indestrutível.
E de dois partiram três que transformaram-se em oito e agregaram mais um monte incontável. Família é isso: um juntamento infinito de possibilidades e universos pararelos cheios de mistérios. Não falta bom humor e boa fofoca. Também não falta vontade de querer mais e preguiça com café.
Sim, sempre tem café. Sempre tem chocolate e jornal com uma exagerada conversa sobre política. Sempre tem receitas e comida de qualquer tipo. Geladeira gorda. Melancia. Televisão ligada. Música e gargalhada. Conversa em cima da cama, ao redor da mesa depois do almoço. Doce de banana. Máquina de lavar fazendo barulho; telefone tocando.
Obrigada aos meus avós que pariram meus pais, que formaram uma família que me mantém sã. Obrigada aos meus irmãos que guardam minhas lembranças como desenho animados. Obrigada as minhas cunhadas que permitiram trazer a esse mundo sobrinhos tão únicos, tão amados. Obrigada as minhas tias e tios, aos meus primos e todos aqueles, consanguíneos ou não, que fazem parte deste conglomerado eterno que é minha família.
E domingo tem bolo da titia – das titias!
Família é realmente de ouro. Belíssima simbologia neste metal valioso, iluminado e tão cobiçado. Porque realmente para conquistá-lo é preciso muito esforço psicológico, vontade de ferro, conivência, cumplicidade. É preciso ceder, aprender a entender e amar.
Só sinto-me triste quando vejo que hoje em dia as famílias perderam a referência de estabilidade. Talvez o mundo esteja caminhando para uma nova evolução familiar, sei lá.
A única coisa que posso dizer, porque sinto todo dia, é que prefiro ainda a família antiga que vivenciei quando pequena – uma mesa grande, com meu avô sentado à cabeceira, e muita conversa e risada pararela na hora do almoço. Essa lembrança rara foi o maior presente que tive.
E esse presente continua sendo aberto todos os dias, no ouro da aliança entre meu pai e minha mãe.

17 setembro, 2011

Expectativas


Interessante como nos decepcionamos com as negativas ou as positivas inversas ao que esperávamos. Complicado? Nem tanto, se pensarmos na quantidade de decepções e encontros desmarcados ou no planejamento infinito que não se concretiza sempre adiando ou esperando que o outro faça acontecer para ser realizado.
Vixi! Agora compliquei de vez! Pergunto-me, por que fico triste depois de ficar alegre? Talvez porque exista ainda em mim aquela pitada de ingenuidade que todos condenam (Sim, porque ser ingênua é sempre ponto negativo!).
Na maioria das vezes dosamos nossa vontade por causa de alguém. Limitamos o tamanho dos nossos passos sempre pensando no julgamento alheio. Se vamos sair para dançar, nunca sem acompanhante; se vamos sair para jantar, nunca sem um par; se vamos ao cinema, imagina, sozinha? Acho graça nesta hora porque penso nos meus sobrinhos... sim, novamente, lá vão eles comigo – ou eu com eles – e acabo na fila dos Smurfs!
Melhor parar com isso! Mas como? Se tudo que aprendemos tem a ver com “o outro”. Desde o início nos ensinam que Deus criou a mulher da costela do homem para que não vivessem sós no paraíso.  Que raio de paraíso é esse que me tolhe, me faz ser condescendente, me ensina que a independência feminina tem um quê de marginalização?
De qualquer forma é melhor começar a contar só comigo para não me decepcionar mais. Ou quem sabe não esperar demais. É isso! Estamos sempre esperando que o outro estabeleça o parâmetro para o que temos que fazer e daí termos prazer.
Isto é perigoso e frustrante. Não serve para quem já passou da adolescência e descobriu que o romantismo está apenas nos filmes e nos romances das Julias e Sabrinas.
Quando ficar alegre por ter que esperar, cuidado: tenha sempre o plano B (ou o Z) pronto. Assim, quando ligarem para desmarcar ou dar uma desculpa esfarrapada (sorte sua pois na maioria das vezes isso nem acontece!) não fique triste. Entenda que as pessoas – homens e mulheres – têm seus momentos, seus altos e baixos, suas seqüelas. E você não é responsável, nem culpada, pelas atitudes alheias. Jamais atrele sua felicidade a alguém que nem mesmo sabe quem é ou a que veio.
Expectativas são suas, criadas na sua mente, crias da sua vontade. Quando entender isto, não terá mais a sensação de tristeza por não ter realizado o que dependia do outro ser. Simplesmente o momento passará e ficará a sensação de que o azar é só dele (ou dela!).
Se nosso coração é livre e tem o poder de ir e vir com responsabilidade, satisfação vira mera informação. Porque se o paraíso significa manter minhas asas dobradas enquanto alguém é responsável pelo vento para que eu possa alçar voo, então, prefiro o inferno!

10 setembro, 2011

Vínculos



Hoje é o casamento do meu primo. Uma relação muito atual, com filhos “seus e meus”, com todos os temperos e um Menu muito próprio, para tudo dar certo. Aí me lembrei de uma conversa sobre relacionamentos que tive com uma amiga, há três anos.
Interessante como os casais se separam fácil hoje em dia, mas a verdade é difícil se separar; é horrível, dói muito, ficamos tristes, afinal, ninguém quer terminar um relacionamento! Temos sempre aquela intenção de sermos um casal eterno; a imagem do envelhecer ao lado daquele alguém com quem nos casamos. Quando me separei, lembro muito bem o que todas as pessoas me diziam. Uma frase, porém me deu muito alento, quando minha tia, depois de ouvir minhas lamentações disse: “Ninguém casa para se separar!”
Com o tempo a dor vai indo embora e percebemos que tudo acontece para o nosso bem.
Depois sempre encontramos alguém que nos diz que podemos ser felizes novamente. E lá no fundo, nós sabemos que podemos. Mas sempre precisamos ouvir isso de outra pessoa, por que será? Auto-estima em baixa? Amor próprio deprimido? Não importa, queremos que ele diga “posso te fazer feliz!”
Somos todos grandes solitários nessa vida internética. Sabe, acredito que a humanidade está sofrendo de solidão coletiva. A maior parte das depressões é devido à falta de um relacionamento estável. Essa história de globalização, ficar, relacionamentos abertos, está deixando as pessoas sem raiz. Isso traz insegurança, afeta toda a psique do indivíduo e leva ao suicídio. Quando falo em suicídio, quero dizer que não precisa dar um tiro na cabeça ou beber veneno para se matar. Basta desistir de viver, ou as vezes se jogar de cabeça em um coquetel de frutas com rum.
As famílias estão sendo transformadas, os relacionamentos duram pouco e tudo em nome de um sexo fácil e emoções "rasas" - ninguém quer se aprofundar em nada e acabamos no fim da noite em casa sozinhos ou, acordamos somente com a cama enorme sem um bom dia, sem um rosto amigo ao lado.
O sentimento do medo nos invade; medo de apaixonar, de amar, de se entregar. Isto promove desconfiança e acabamos deixando de lado a autenticidade e nos embolamos nos outros e esquecemos o que queremos de verdade. Muitas vezes aquele que encontramos é bom, mas não acreditamos, e ele também não, achando que somos todas iguais! Tudo por uma questão de insegurança, de um inconsciente coletivo que nos diz que nada vai dar certo! Mesmo porque se não der é só separar. Essa é a grande pegada do momento. Nem precisamos mais tentar!
No fundo só queremos ser felizes. Fazer o outro feliz. E podemos! Podemos ser ótimas companhias um para outro. Isto nos faz bem! Podemos até achar que isso é impossível, que não existe.
Mas no fundo sabemos que é tudo uma questão de confiança, segurança, deixar o coração nos guiar. Minha amiga Fa disse que precisamos pensar nossa vida com metas. Na maioria das vezes só conseguimos atrelar nossas metas a alguém, porque no fundo, necessitamos de um vínculo. Não dá para ser feliz sem ele. Seja ele de que jeito for com quem quer que nos ame ou que amemos.
Vínculos - É assim que somos feitos, de sentimentos que nos unem às pessoas... fácil?! Depende da qualidade do amor e da sua capacidade de entendê-lo.

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